É
sempre bom ver shows de músicos que tocam felizes,
principalmente se forem criativos e virtuosos. Quem esteve
no Villaggio Café (www.villaggio.com.br)
no dia 11 de outubro teve essa oportunidade, com a apresentação
de Arismar do Espírito Santo, Léa Freire
e Silvia Góes. Talvez por ser véspera de
Dia das Crianças, o que se viu foram três
dos mais importantes instrumentistas brasileiros da atualidade
tocarem como se estivessem brincando apesar da
seriedade do resultado. Sílvia Góes parecia
estar descobrindo o piano, maravilhando-se. Léa
Freire solava com a ingenuidade e a sensibilidade própria
das crianças. Nas grandes mãos do grande
Arismar, o violão parecia um brinquedo. E o resultado
era coisa de adultos, coisa muito séria.
O
trio dividiu a apresentação entre clássicos
do cancioneiro popular e temas próprios
especialmente de Arismar (foto), que prepara seu segundo
CD pelo selo Maritaca. Em suas composições,
o multi-instrumentista revela, no violão de sete
cordas, toda sua inventividade. Trabalhando a melodia
implicitamente nos acordes, Arismar carrega sua levada
de percussividade, extraída tanto da caixa como
das cordas do violão. Ao mesmo tempo, nas cordas
mais graves segura o baixo com seu estilo todo peculiar.
Assim, quem pagou para ver um trio, viu um quinteto, com
Arismar fazendo violão, baixo e percussão.
Já
em Saudades da Bahia (Caymmi), A noite do meu bem (Dolores
Duran), e Felicidade (Jobim), nota-se a criatividade do
trio para reler clássicos da música popular,
arranjando-os de maneira completamente jazzística,
porém sem lhes tirar o sabor brasileiro. Nestes
temas ressalta-se a qualidade e a sensibilidade da flautista
Léa Freire, em solos expressivos que conduzem à
reflexão, e o virtuosismo de Sílvia Góes,
que empolgou a platéia com seus solos, ao mesmo
tempo técnicos, criativos, enérgicos e humorados.
Na
segunda entrada, Arismar trocou o violão de sete
cordas pela guitarra, mostrando mais um lado de sua qualidade
de multi-instrumentista. Em arranjos brilhantes, Rosa
(Pixinguinha) e Saudades da Bahia (Ari Barroso) foram
desconstruídas e reconstruídas em arranjos
contrapontísticos, encantando os ouvintes. Passando
ainda por baladas, valsas e mesmo um frevo, Arismar, Léa
Freire e Silvia Góes mostraram sua qualidade e
justificaram porque se encontram entre os instrumentistas
mais requisitados do cenário instrumental brasileiro.
Já de madrugada, o público saiu do Villaggio
Café alegre, sorridente com o que tinha acabado
de presenciar. Como crianças.
Arismar
do Espírito Santo: multiinstrumentista, é
reconhecido como músico completo, pela fluência
com que toca seja o contrabaixo, a guitarra, o violão,
o piano ou a bateria. Sua maneira muito própria
de tocar e compor, as harmonias muitas vezes inusitadas,
o ritmo e a espetacular criatividade têm sido sua
marca registrada. Com seu 1o CD solo ganhou o Prêmio
Sharp de Música, na categoria instrumental. Atualmente
tem coordenado e ministrado vários cursos e workshops
de Contrabaixo, de Criação Musical e Prática
de Conjunto para Instrumentos de Base, e de Conjuntos
de Jazz, Choro e Samba, em cidades do Brasil e do exterior.
Em 26 anos de carreira, Arismar atuou em shows e gravações
ao lado de inúmeros artistas e grupos instrumentais
brasileiros e estrangeiros, como Hermeto Pascoal, César
Camargo Mariano, Sebastião Tapajós, Jane
Duboc, Dominguinhos, Luís Eça, Dory Caymmi,
Heraldo do Monte, Lenine, Joyce, Paquito D'Rivera, Lisa
Ono, e muitos outros. Atualmente está preparando
o lançamento de seu segundo CD, com composições
próprias, em que mostra seu lado de guitarrista.
Silvia
Goes: pianista, compositora e arranjadora, trabalhou
nos estúdios Maurício de Souza fazendo trilhas
para desenho animado (três longas e vários
curtas). Apresentou-se ao lado de diversos cantores e
compositores, como Toquinho, Jane Duboc, Leny Andrade,
Hermeto Pascoal, Dominguinhos, Roberto Sion, e Maurício
Einhorn. Tem ministrado cursos de piano com um método
próprio, e atualmente está trabalhando na
gravação de seu CD.
Léa
Freire: flautista e compositora, estudou piano clássico,
violão popular, flauta, sax soprano, bateria e
canto com vários professores de renome no Brasil
e na Berklee University, em Boston. Professora de flauta
transversal, violão e solfejo na escola do Zimbo
Trio, tocou com vários nomes da música instrumental
brasileira e da MPB, entre eles Alaíde Costa, Nana
Caymmi, Filó Machado, Nélson Ayres, Nico
Assumpção e outros, em gravações,
shows e casas noturnas. Tem parcerias com Joyce, Jean
Garfunkel e Cláudia Ferrete. Lançou seu
primeiro CD em 97, Ninhal, com participações
especiais da Banda Mantiqueira, Quarteto Livre, Joyce,
Filó Machado e outros. Gravou, junto com Teco Cardoso,
o CD Quinteto, lançado em novembro de 99,
pelo Núcleo Contemporâneo (www.nucleo.art.br).
