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Marlon Jordan Quartet
e The New Orleans Nightcrawlers
(FreeJazzz - Jockey Club - SP)

 
O Free Jazz Festival este ano procurou inovar, incluindo o tecno entre as atrações e continuando a dar bastante espaço ao pop. Neste contexto, o jazz ficou um pouco deslocado, sendo relegado a horários esdrúxulos (como o show às 19 horas de uma sexta-feira paulistana, em que a maior parte do público ainda estava enfrentando seu congestionamento diário) e a um espaço mais adequado a raves ou bailes de carnaval. Salvaram-se os artistas escolhidos para representar o jazz, que apesar de poucos, foram de muito bom nível.

Uma das melhores noites do festival - justamente a sexta-feira - trouxe em seu primeiro horário, no palco New Directions, dois grupos de jazz que em comum só tinham o fato de serem originários de New Orleans: Marlon Jordan Quartet e New Orleans Nightgrawlers. Enquanto Jordan, trompetista dotado de extrema técnica e conhecimento musical, fez um show elegante mas burocrático, a banda sulista pôs a platéia para dançar com seu peculiar funk-jazz de toques caribenhos.

Marlon Jordan é considerado pela crítica como um dos mais importantes jovens artistas que vêm revitalizando o jazz moderno. Seguindo o caminho de Wynton Marsalis - cuja influência pode ser notada até no visual conservador - Jordan preocupa-se em manter a tradição do hardbop. Dono de técnica apurada e extremo conhecimento dos standards, entretanto, Marlon Jordan fez um show morno na tarde de sexta-feira no Jóquei Clube. Seguindo o padrão tema - solo de trompete - solo de piano - tema, o que se ouvia era de certa forma esperado - a não ser por alguns improvisos de Jordan que agradaram por sua vitalidade, técnica, e timbre cristalino. O trio piano-contrabaixo-bateria que o acompanhava, apesar de não comprometer, tampouco ganharia muito destaque nas casas de jazz da noite paulistana.

Mais surpreendente foi a apresentação dos New Orleans Nightcrawlers, banda formada na cidade berço do jazz em meados da década de 1990. Dixieland? Ragtime? Esquece. O negócio dos Nightcrawlers é funk, do melhor, e mais insólito.
A banda apresenta-se com uma formação completamente metálica, com um naipe composto por dois trompetes, trombone, sax tenor, sax barítono e baixo tuba, mais a sessão rítmica: congas, bumbo e caixa/pratos, executados por três percussionistas enérgicos e alegres que incendiaram a platéia. Aliás, a alegria foi a marca da apresentação da banda, embora quem conseguisse atentar à técnica e aos arranjos tenha percebido que se trata de uma das melhores e mais criativas bandas que surgiu no cenário jazzístico americano nos anos 90.

O repertório incluiu composições próprias e clássicos do funk e caribe, como Celebration e Oye como va, interpretadas em longos pout-pourris que davam espaço ao improviso dos instrumentistas - alguns solos empolgaram a platéia e ficarão na memória, especialmente o solo à capela do saxofonista tenor Jason Mingledorff, o solo de bateria a quatro mãos feito pela dupla de percussionistas Tanio Hingle e Kerry Hunter, e o solo de conga feito pelo percussionista e vocalista Smiley Ricks, o mais carismático da banda. Nos arranjos, os Nightcrawlers revelam imenso domínio da técnica contrapontística e da harmonia em metais, dispensando a presença de qualquer instrumento harmônico.

Para encerrar o show, e não dizer que não falei de dixieland, os New Orleans Nightcrawlers fizeram jus ao nome e executaram, no bis, uma típica peça do jazz do sul dos Estados Unidos, confortando aqueles que esperavam um show mais tradicionalista. Que eram poucos.

por André Gattaz

 

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