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Chivas Jazz Festival promete Noites Históricas

(por Mona Gadelha, ejazz)

confira a programação


A maratona de shows em São Paulo e no Rio, na quarta edição do Chivas Jazz Festival, de 28 a 31 de maio, configura-se como histórica. Graças à consistência e diversidade da programação, marcada por um importante retorno (o do pianista e compositor Dom Salvador, que há 30 anos não se apresenta no Brasil), estréias nos palcos do país de nomes consagrados, como o sempre surpreendente saxofonista Arthur Blythe, o baterista Paul Motian e sua Electric Bebob Band, o saxofonista Lee Konitz, que gravou com Miles Davis "The Bith of Cool" e o pianista Paul Bley, além de músicos que despontaram recentemente - como o aclamado pianista Jason Moran e o jovem saxofonista Eric Alexander. Já a cantora Mary Staling, é dona de uma biografia inusitada. Considerada revelação nos últimos anos, sua carreira esteve em off por duas décadas.

A programação pouco heterodoxa, essencialmente jazzy, é uma prerrogativa do Chivas Jazz Festival, como explica Carolina Campos, gerente da marca Chivas Regal, da Pernod Ricard Brasil, para quem a maioria dos festivais internacionais faz concessões "ao pop e outros modismos". A proposta de seguir "essa linha oposta" consagrou o evento, que em 2003 realiza shows simultâneos no Directv Music Hall, em São Paulo, e na Marina da Glória, no Rio.

Priorizar artistas inéditos no país também é outro dogma do festival. Segundo o produtor Toy Lima, a idéia é trazer músicos de qualidade em alta voltagem, conhecidos ou não do público que prestigia o Chivas Jazz, mas que nunca tenham se apresentado por aqui. "A função de um festival de jazz também é mostrar o que há de novo no gênero", comenta.


Uma chance para ver Dom Salvador

Dom SalvadorPor um desses deslizes históricos pouco afeitos a alguma explicação, Dom Salvador, um nome fundamental da música brasileira dos anos 60/70, há três décadas não se apresenta em seu país, onde é especialmente admirado pelos amantes da fusão samba+funk+soul.

Esse fato só acirra a expectativa em torno do seu show, na verdade, uma noite programada para homenageá-lo, que ainda traz como atração à parte o baterista Duduka da Fonseca, também radicado em Nova York, indicado no último Grammy com o CD "Samba Jazz Fantasia" (Malandro Records) na categoria de melhor álbum de jazz latino. Completam o grupo dois grandes músicos - o baixista Rogério Botter Maio e saxofonista norte-americano Dick Oatts.

Freqüentador do lendário clube Beco das Garrafas, Salvador foi integrante do Copa Trio, criado por Dom Um Romão. Com Sérgio Barroso, baixista, e o célebre baterista Edison Machado, formou o Rio 65 Trio. Ainda nos anos 60, acompanhou Elis Regina e Jorge Ben. A conseqüência natural foi estabelecer seu próprio grupo, o Salvador Trio, e na virada da década, apaixonado pelo soul, se tornaria Dom Salvador, liderando a banda de músicos negros "Abolição", com quem viria a gravar o disco "Som, Suingue e Raça", pioneiro na fusão do samba com o funk e soul. O "Abolição" era formado por grandes músicos, como o saxofonista Oberdan Magalhães, a cantora Mariá, o baixista Rubão Sabino, o trumpetista Barrosinho e o guitarrista Zé Carlos.

A partida para os Estados Unidos seria definitiva no início dos anos 70. E lhe rendeu trabalhos com uma extensa e brilhante lista de músicos, como Ron Carter, Herbie Mann, Cecil McBee, Richard Davis, Dom Um Romão (outra vez), Robin Kenyatta, Eddie Gomez, Marty Morell e Paul Horn. Num dos grandes momentos de sua careira, Dom Salvador foi diretor musical de Harry Belafonte, além de trabalhar com o saxofonista Charlie Rouse, com quem gravou o disco "Cinnamon Flower", editado em 75. Apresentando-se por últimos 25 anos no River Café, em Nova York, Salvador produziu lá o seu disco ao vivo "Romantic Interlude at The River Café", o mais recente.


Blues, baladas e bepop

Uma das principais características da trajetória do saxofonista Arthur Blythe é a tênue linha que o coloca entre o mainstream e a vanguarda. Em 2002, quando lançou o elogiado álbum "Focus" (Savant), mostrou que gosta mesmo de formações inusitadas, juntando sax alto, marimba, bateria e tuba.

Blythe integrou o grupo do baterista Chico Hamilton, experimentou a fusão do jazz com o pop, foi cultuado na cena alternativa de Nova York, participou de grupos como o World Saxophone Quartet (Oliver Lake, David Murray e Hamiett Bluiett) e o The Leaders. No Chivas Jazz Festival promete uma performance com blues e baladas, com a ajuda do conhecido tubista Bob Stewart.

À frente da Electric Bebop Band, com repertório que recria temas desse estilo, especialmente as composições do mestre Thelonious Monk, o baterista e compositor Paul Motian assinala em sua biografia trabalhos com legendas do porte de Bill Evans e Keith Jarrett. Com o primeiro, inovou, criando tessituras e melodias. Com Jarret, tocou durante nove anos.

As baquetas de Motian também estiveram a serviço de uma lista que inclui Stan Getz, Coleman Hawkins, Gil Evans, do próprio Thelonious Monk e do pianista Paul Bley, outra atração do Chivas Jazz Festival.

O baterista lançou no final dos anos 80 a trilogia "Paul Motian on Broadway", com clássicos das décadas 20/30, que contou com a participação de outro convidado do festival este ano, o saxofonista Lee Konitz. Além do talento excepcional de Motian, seu grupo apresenta dois notáveis - os saxofonistas Chris Cheek e Tony Malaby. Recomenda-se ficar de olhos e ouvidos nesses rapazes!

Quando Lee Konitz entra no palco soprando o seu sax alto, 50 anos de história do jazz o acompanham. Aos 75 anos, Konitz, que mora na cidade de Colônia, Alemanha, ostenta em sua discografia a parceria com Miles Davis e a participação em "Intuition", do pianista Lennie Tristano, seu mestre. Integrou a orquestra de Stan Kenton e dividiu sets com uma grande lista de nomes, como Phil Woods, Gerry Mulligan, Brookmeyer, Jack DeJohnette, Ron Carter, Gil Evans, Elvin Jones e tantos outros.

Além do célebre álbum com Miles Davis, Konitz comprovou sua paixão pela música brasileira ao produzir o disco "The Jobim Collection" (Philogy), em 93. "The Lee Konitz Nonet" (Roulette) é outro trabalho que marcou sua carreira, ao lado do maravilhoso disco de duos de 67 com Jim Hall, Richie Kamuca, Dick Katz e Joe Henderson. Também homenageou Billie Holiday com o álbum "Strings for Holiday", gravando com um sexteto de cordas.

Paul Bley teve seu primeiro disco, "Introducing Paul Bley", de 1953, (Debut), produzido por Charles Mingus. Como se não bastasse, contou com Art Blakey nas baquetas. Desde então, o pianista canadense já gravou o impressionante número de 100 discos.

Casado com a pianista Carla Bley, sua trajetória cinqüentenária inclui gravações com Jaco Pastorius, Gary Burton, Chet Baker, Bill Evans, John Scofield, Sam Rivers, Evan Parker e monstros sagrados do jazz. Em seu país, criou a Montreal Jazz Workshop, apresentando-se ao lado de Sonny Rollins e Charlie Parker. Com seu companheiro de Chivas Jazz, Paul Motian, e o baixista Gary Peacock formou um trio lendário que influenciou gerações de jazzmen.


A presença de uma diva

Mary StallingÚnica voz feminina do festival, a história de Mary Stalling lembra duas outras grandes damas do jazz: Shirley Horn e Alberta Hunter. Como elas, Mary também sumiu por um bom tempo dos palcos - mais de vinte anos! -, foi cuidar da vida e depois voltou irradiando vitalidade. O hiato começou nos anos 70, depois de um início de carreira bem sucedido, acompanhada de músicos renomados, como Ben Webster e Louis Jordan.

Com Dizzy Gillespie chegou a se apresentar no Monterrey Jazz Festival e em temporadas no clube Black Hawk, passando ainda pelos grupos de Billy Eckstine, Earl Hines e Count Basie. Depois desse retumbante começo, o que terá acontecido com Mary para largar assim uma carreira promissora? Go figure!

Mas o que importa é a sua volta em busca do tempo perdido, lançando na década passada sete discos. O mais novo é "Live at the Village Vanguard" (MaxJazz). Confessadamente influenciada por Dinah Washington, Mary canta Cole Porter e Duke Ellington.


Nova geração

O pianista Jason Moran apresenta-se acompanhado pelo baixista Tarus Mateen e Nasheet Waits na bateria. Moran é aclamado como revelação, lançando seguidamente quatro álbuns referendados pela crítica, todos pela Blue Note: "Soundtrack to Human Motion" (1999), "Facing Left" (2000), "Black Stars", de 2001, e "Modernistic" (2002), com as marcas do hard bop e free jazz, mostrando que Moran é um experimentador que cultua o passado.

Ele começou a se destacar na banda do saxofonista Greg Osby. E aos 28 anos, o "modernista" Moran quebra barreiras, atitude que o faz gravar de Schummann a Afrika Bambaata. Além da carreira solo, já trabalhou com a diva Cassandra Wilson, Joe Lovano e com o músico de sua geração, Stefon Harris.

Eric AlexanderAos 32 anos, o saxofonista Eric Alexander é considerado mais um "young Lion" do jazz. No Chivas Jazz apresenta-se com o pianista Harold Mabern, uma legenda que se tornou mestre e parceiro. Influenciado pelo hard bob cinquentista, Alexander é outro jazzista que ama a tradição, mas busca seu próprio caminho. Nesse trajeto precoce atuou na banda de Charles Earland, tocou com Steve Turre, Freddy Cole e Pat Martino.


Programação

Rio de Janeiro

28/05 (quarta-feira)
Jason Moran Trio
Mary Stallings & Trio

29/05 (Quinta-feira)
Paul Motian & The Electric Bebop Band
Eric Alexander Quartet

30/05 (sexta-feira)
Arthur Blythe Trio
Dom Salvador Quarteto

31/05 (sábado)
Paul Bley
Lee Konitz e Talmor Nonet

São Paulo

28/05 (quarta-feira)
Paul Motian & The Electric Bebop Band
Eric Alexander Quartet

29/05 (Quinta-feira)
Jason Moran Trio
Mary Stallings & Trio

30/05 (sexta-feira)
Paul Bley
Lee Konitz e Talmor Nonet

31/05 (sábado)
Arthur Blythe Trio
Dom Salvador Quarteto


Locais:

Rio de Janeiro
Marina da Glória
Av. Infante Dom Henrique s/nº - Glória
Tel.: (21) 2205-67

São Paulo
DirecTV Music Hall
Al. Dos Jamaris 213 - Moema
Tel: (11) 5643-2500

 

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