Ejazz – o site do jazz e da música instrumental brasileira
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Entrevista com Zeca Freitas e Fernando Marinho,
curadores do Festival
de Música Instrumental de Salvador (12/03)

(por AC Gattaz, correspondente ejazz)

ejazz: Eu gostaria que vocês se apresentassem para os leitores do ejazz.

Zeca Freitas (na foto, à esq.): Eu sou do Rio de Janeiro, e na década de 70 larguei medicina pra fazer música. Procurei uma escola no Brasil e encontrei a escola de Música da UFBA, com a qual me identifiquei mais, e vim do Rio de Janeiro para Salvador. Depois, passei um período nos Estados Unidos e voltei ao Rio de Janeiro, mas acabei voltando para Salvador. Fui convidado para tocar na banda do companheiro Mágico – essa banda tem uma história bonita... Depois de três anos larguei a banda, mas já estava apaixonado por essa terra, e aqui fiquei, já me envolvendo com música instrumental. Desde então tenho trabalhado como saxofonista, pianista, compositor, arranjador e produtor.

Fernando Marinho (na foto, à dir.): Eu comecei a estudar piano com cinco anos... Tive uma formação erudita de piano, estudei até os quinze anos, período em que eu ganhei um prêmio como pianista num concurso nacional. Depois disso eu comecei a desenvolver mais um trabalho com música popular, trabalhando com MPB e ouvindo mais jazz, trabalhando com a base de jazz. E comecei minha carreira por aí, mas nunca pensei em viver profissionalmente só de música, eu sempre trabalhei com outras coisas. Eu sou formado e tenho o mestrado em Direito, e trabalhei muitos anos no estado, mas sempre fazendo um trabalho paralelo com música, tocando na noite, fazendo shows... Depois disso apareceu o teatro na minha vida. Eu comecei a fazer trabalhos para teatro, compor trilhas para espetáculos, e aí inventaram que eu tinha uma veia cômica e comecei a atuar. Fundei uma companhia de teatro, a Companhia Baiana de Patifaria, então a parte da música ficou em paralelo, e menor. De uns cinco anos pra cá, voltei a fazer trabalhos com piano e voz, recitais, coisas assim. E ultimamente comecei a trabalhar mais, porque com a queda dessa música comercial, começaram a surgir os novos trabalhos, de MPB, trabalhos instrumentais...

Zeca Freitas (esq.) e Fernando Marinho
na noite de encerramento do Festival.

ejazz: Como surgiu o Festival de Música Instrumental?

Zeca Freitas: Em 1980, [o maestro e trombonista] Fred Dantas teve a idéia: “Zeca: precisamos fazer um festival de música instrumental, que já tem muito grupo por aí...” Essa coisa ficou na minha cabeça e não saiu mais, e acabei me tornando o organizador do festival. Era um festival amador, sem patrocínio, com muitas dificuldades, mas mesmo assim durou nove anos, revolucionou a música instrumental na cidade, impulsionou muitos grupos, muitos grupos se formaram e muitos músicos de fora se radicaram aqui por causa desse festival. Só que depois ele foi decaindo, por falta de apoio, de patrocínio, e acabou se esgotando. Por treze anos ficou parado. Nós tentamos voltar uma ou duas vezes, mas não deu certo.

Fernando Marinho: Também nessa época veio a onda da música comercial baiana, do axé. A música ao vivo em bares, em Salvador, diminuiu sensivelmente, quase acabaram os bares com música ao vivo, o pessoal só trabalhava com axé, pagode, essas coisas que estavam mais na moda. Muitos desses músicos que se apresentaram aqui estavam dispersos nessas bandas de axé, inclusive os melhores, e só de vez em quando se encontravam pra matar a saudade, porque o trabalho contínuo estava parado. Eles estavam contratados onde eles podiam ganhar dinheiro: com as bandas de trio. Mas hoje em dia isso está mudando... O declínio do axé está dando espaço para outras linhas de música.

Zeca Freitas: Nada impede a pessoa de fazer seu trabalho e ganhar seu dinheiro tocando com as grandes estrelas, é normal... Só que é muito difícil manter o trabalho instrumental com regularidade.

ejazz: E como surgiu a idéia de retomar o Festival?

Zeca Freitas: Em 2001, [o trombonista] Joatan Nascimento falou: “Essa música instrumental nossa está estagnada, tem muita coisa boa acontecendo no Brasil inteiro e a nossa está estagnada...” Então eu falei: “Tudo bem, vamos fazer o décimo festival” – sem patrocínio, sem nada: na cara e na coragem. Eu chamei o Fernando Marinho para os contatos – diziam que ele era muito descolado, tinha os contatos – e ele além dos contatos conseguiu uma pequena grana pra fazer o festival. Fizemos um belíssimo festival em 2001. E aí a gente foi atrás de patrocínio para o ano seguinte, e pela primeira vez a gente conseguiu o apoio do governo: o projeto foi aprovado pelo FAZCULTURA [projeto de incentivo fiscal do governo do estado da Bahia] e conseguimos o patrocínio da Telebahia. Era pra ser no final do ano passado, mas por uns atrasos da burocracia, acabou ficando para esse ano, e foi muito legal que tenha ficado no verão. Para 2004, pretendemos tornar o festival internacional.

 

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