ejazz:
Eu gostaria que vocês se apresentassem para os leitores
do ejazz.
Zeca
Freitas (na foto, à esq.): Eu sou do Rio de
Janeiro, e na década de 70 larguei medicina pra fazer
música. Procurei uma escola no Brasil e encontrei a escola
de Música da UFBA, com a qual me identifiquei mais, e
vim do Rio de Janeiro para Salvador. Depois, passei um
período nos Estados Unidos e voltei ao Rio de Janeiro,
mas acabei voltando para Salvador. Fui convidado para
tocar na banda do companheiro Mágico – essa banda tem
uma história bonita... Depois de três anos larguei a banda,
mas já estava apaixonado por essa terra, e aqui fiquei,
já me envolvendo com música instrumental. Desde então
tenho trabalhado como saxofonista, pianista, compositor,
arranjador e produtor.
Fernando
Marinho (na foto, à dir.): Eu comecei a estudar
piano com cinco anos... Tive uma formação erudita de piano,
estudei até os quinze anos, período em que eu ganhei um
prêmio como pianista num concurso nacional. Depois disso
eu comecei a desenvolver mais um trabalho com música popular,
trabalhando com MPB e ouvindo mais jazz, trabalhando com
a base de jazz. E comecei minha carreira por aí, mas nunca
pensei em viver profissionalmente só de música, eu sempre
trabalhei com outras coisas. Eu sou formado e tenho o
mestrado em Direito, e trabalhei muitos anos no estado,
mas sempre fazendo um trabalho paralelo com música, tocando
na noite, fazendo shows... Depois disso apareceu o teatro
na minha vida. Eu comecei a fazer trabalhos para teatro,
compor trilhas para espetáculos, e aí inventaram que eu
tinha uma veia cômica e comecei a atuar. Fundei uma companhia
de teatro, a Companhia Baiana de Patifaria, então a parte
da música ficou em paralelo, e menor. De uns cinco anos
pra cá, voltei a fazer trabalhos com piano e voz, recitais,
coisas assim. E ultimamente comecei a trabalhar mais,
porque com a queda dessa música comercial, começaram a
surgir os novos trabalhos, de MPB, trabalhos instrumentais...
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Zeca
Freitas (esq.) e Fernando Marinho
na noite de encerramento do Festival.
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ejazz:
Como surgiu o Festival de Música Instrumental?
Zeca
Freitas: Em 1980, [o maestro e trombonista] Fred Dantas
teve a idéia: “Zeca: precisamos fazer um festival de música
instrumental, que já tem muito grupo por aí...” Essa coisa
ficou na minha cabeça e não saiu mais, e acabei me tornando
o organizador do festival. Era um festival amador, sem
patrocínio, com muitas dificuldades, mas mesmo assim durou
nove anos, revolucionou a música instrumental na cidade,
impulsionou muitos grupos, muitos grupos se formaram e
muitos músicos de fora se radicaram aqui por causa desse
festival. Só que depois ele foi decaindo, por falta de
apoio, de patrocínio, e acabou se esgotando. Por treze
anos ficou parado. Nós tentamos voltar uma ou duas vezes,
mas não deu certo.
Fernando
Marinho: Também nessa época veio a onda da música
comercial baiana, do axé. A música ao vivo em bares, em
Salvador, diminuiu sensivelmente, quase acabaram os bares
com música ao vivo, o pessoal só trabalhava com axé, pagode,
essas coisas que estavam mais na moda. Muitos desses músicos
que se apresentaram aqui estavam dispersos nessas bandas
de axé, inclusive os melhores, e só de vez em quando se
encontravam pra matar a saudade, porque o trabalho contínuo
estava parado. Eles estavam contratados onde eles podiam
ganhar dinheiro: com as bandas de trio. Mas hoje em dia
isso está mudando... O declínio do axé está dando espaço
para outras linhas de música.
Zeca
Freitas: Nada impede a pessoa de fazer seu trabalho
e ganhar seu dinheiro tocando com as grandes estrelas,
é normal... Só que é muito difícil manter o trabalho instrumental
com regularidade.
ejazz:
E como surgiu a idéia de retomar o Festival?
Zeca
Freitas: Em 2001, [o trombonista] Joatan Nascimento
falou: “Essa música instrumental nossa está estagnada,
tem muita coisa boa acontecendo no Brasil inteiro e a
nossa está estagnada...” Então eu falei: “Tudo bem, vamos
fazer o décimo festival” – sem patrocínio, sem nada: na
cara e na coragem. Eu chamei o Fernando Marinho para os
contatos – diziam que ele era muito descolado, tinha os
contatos – e ele além dos contatos conseguiu uma pequena
grana pra fazer o festival. Fizemos um belíssimo festival
em 2001. E aí a gente foi atrás de patrocínio para o ano
seguinte, e pela primeira vez a gente conseguiu o apoio
do governo: o projeto foi aprovado pelo FAZCULTURA [projeto
de incentivo fiscal do governo do estado da Bahia] e conseguimos
o patrocínio da Telebahia. Era pra ser no final do ano
passado, mas por uns atrasos da burocracia, acabou ficando
para esse ano, e foi muito legal que tenha ficado no verão.
Para 2004, pretendemos tornar o festival internacional.