|
|
Gigantes do Jazz - Charles Mingus (Abril Cultural)
|
Charles Mingus (1922-1979) > contrabaixo, piano
Charles Mingus Jr.
é o mais influente contrabaixista do jazz moderno. Nascido
numa base militar em Nogale, Arizona, cresceu em Los Angeles.
Tendo começado a estudar música ainda criança,
depois de tentativas sem muito sucesso com o trombone e o violoncelo,
acabou por se decidir pelo contrabaixo na época do colégio.
Seu talento logo foi percebido, e Mingus trocou nos anos 40 nos
grupos de Barney Bigard, Louis Armstrong
e Lionel Hampton. Participou do trio do vibrafonista Red Norvo
(com o guitarrista Tal Farlow) em 1950-1951. Nos anos 50 tocou
com uma constelação de grandes músicos: Billy
Taylor, Stan Getz, Art
Tatum, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Max Roach e Duke Ellington, a
quem admirava muito.
Em 1956 Mingus gravou
o disco Pithecanthropus Erectus, amplamente reconhecido
como uma obra-prima, que estabeleceu definitivamente seu nome
como um dos líderes do jazz moderno. Nos dez anos seguintes,
ele comporia temas antológicos e gravaria discos idem,
tocando com Eric Dolphy, Jackie McLean, J. R. Monterose, Jimmy
Knepper, Roland Kirk, Booker Ervin e John Handy, entre outros.
Durante a década de 60, porém, problemas psicológicos
e dificuldades financeiras fizeram a carreira de Mingus entrar
em parafuso (não sem antes gravar mais uma de suas obras-primas,
The Black Saint and The Sinner Lady, e também um
disco solo como pianista, Mingus Plays Piano). Alguns aspectos
dessa fase estão documentados no documentário Mingus,
de Thomas Reichman (1968).
As coisas só
iriam melhorar, na vida profissional e pessoal, a partir de 1971,
com o recebimento de uma bolsa de composição da
fundação Guggenheim, a venda das matrizes do selo
Debut (que fora fundado por Mingus e Max
Roach) para a Fantasy, e a publicação da surpreendente
autobiografia Beneath the Underdog (algo como Mais
por baixo que vira-lata). A partir daí, começou
a haver um reconhecimento maior por parte do público; porém
há quem diga que o fogo criador havia sido um tanto atenuado.
Em 1977 foi diagnosticada em Mingus uma esclerose lateral amiotrófica.
Em 1978, realizou-se um concerto em sua homenagem na Casa Branca,
ao qual Mingus compareceu já numa cadeira de rodas. O fim
viria em 5 de janeiro de 1979, depois de uma série desesperada
de tentativas de cura usando diversos tipos de medicina não-convencional.
Depois de sua morte, seu prestígio cresceu ainda mais,
e os grupos Mingus Dinasty e Mingus Big Band levaram
seu legado adiante.
Mingus possuía
uma personalidade complexa, contraditória e até
mesmo agressiva - não são poucas as histórias
que se contam de Mingus tendo agredido outros músicos.
Tendo experimentado diversas interrupções na produção
musical por conta de sua instabilidade emocional, recuperava-se
a seguir para continuar tocando magistralmente. Sentia com intensidade
o drama do preconceito racial, usando diversas vezes a música
como veículo de protesto (por exemplo, na composição
Fables of Faubus, endereçada a um governador
do estado de Arkansas).
Nos anos 50 e 60,
Mingus abriu novos caminhos para o jazz e para o contrabaixo em
particular. Seu toque ao contrabaixo é nervoso, veloz e
irregular, e seus solos são longos e intensos. Ele fez
com o contrabaixo o que Max Roach e
Art Blakey fizeram com a bateria:
emancipou o instrumento, trouxe-o para o primeiro plano, conferiu-lhe
um discurso próprio. As composições de Mingus,
às vezes estruturadas de modo consideravelmente complexo,
revelam um pensamento musical sofisticado. O conjunto de Mingus,
em todas as suas diferentes formações, se caracterizava
por uma intensa improvisação coletiva e por uma
grande liberdade harmônica. Em certo sentido, ele pode ser
considerado um precursor do free
jazz. No entanto, é bom lembrar que Mingus nunca deixou
de cultivar, mesmo em peças mais profundamente radicais,
as raízes do jazz. Ora vanguardista, ora tradicionalista,
ora lírico, ora feroz, porém sempre inovador e profundamente
musical, Mingus criou, ao longo de seus 56 anos, uma obra profunda,
que tem servido de inspiração para gerações
de músicos.
(V.A. Bezerra, 2001)

|