|
|
|
Hermeto Pascoal (n.1936) > piano, sax alto, bateria, escaleta, flauta, violão, contrabaixo, bombardino, sanfona, percussão
Nascido em Município
da Lagoa da Canoa de Arapiraca em 22 de junho de 1936, o "Galego
do seu Pascoal", como costumavam chamá-lo, começou
a se maravilhar com os sons ainda muito menino na serralheria
de seu avô, batendo em pedacinhos de ferro que pendurava
em um varalzinho. Aos sete anos começou a tocar sanfona
de sete baixos e flautas rudimentares feitas por ele mesmo. Um
ano mais tarde ganhou de seu pai uma sanfona de 32 baixos com
a qual começou a tocar em bailes da região, acompanhado
do irmao José.
Aos quatorze anos
mudou-se com a família para Recife, onde se apresentava
em programas de rádio, e aos vinte anos foi contratado
pela Rádio do Comércio onde acompanhava calouros
e comandava uma orquestra. Lá formou com seu amigo Sivuca
- também albino, e com quem costuma ser confundido - um
trio chamado O Mundo em Chamas.
Em 1958 trocou Recife
pelo Rio de Janeiro, onde tocou por três anos acompanhando
outros músicos, em programas de rádio e no grupo
Regional de Pernambuco do Pandeiro antes de mudar-se para
São Paulo.
Tocou em casas noturnas
como a Stardust, onde tocava piano de maneira conservadora seguindo
os requisitos da casa. Nos intervalos ia ao banheiro estudar flauta.
Logo formaria o Trio Sambrasa no qual tocava piano ao lado
de Airto Moreira na bateria e Claiber no baixo. Mais ou menos
na mesma época, Airto o convidou para integrar o trio do
qual fazia parte, o Trio Novo, com Théo de Barros
no baixo e Heraldo do Monte no violão. Com a entrada de
Hermeto Pascoal surgiu o conjunto que abriu trilhas para a música
instrumental brasileira, o fantástico e desbravador Quarteto
Novo, com propostas novas, misturando ritmos nordestinos com
arranjos jazzísticos sofisticados. Infelizmente, dessa
formação só foi lançado um álbum,
Quarteto Novo, que vergonhosamente segue sem uma reedição
em CD. O quarteto participou do terceiro festival da Record, acompanhando
Edu Lobo na canção vencedora de festival, "Ponteio".
O grupo se dissolveu
com a partida de Airto para os EUA em 1969, e dois anos mais tarde
a convite do mesmo Hermeto seguiu para Nova Iorque, onde se apresentou
para uma platéia seleta que incluía Joe Zawinul,
Miles Davis, Wayne
Shorter e Gil Evans. Miles ficou
muito impressionado com Hermeto e o convidou a participar de um
concerto em Washington D.C. do qual resultou o álbum Live
Evil, descrito por alguns como "assustador". O disco
traz duas composições de Hermeto, "Capelinha"
(Little Church) e "Nem Um Talvez". Na primeira
Hermeto faz um duo de assobio com o trompetista. Hermeto conta
que, nas horas vagas, quando não estavam tocando, Miles
e ele costumavam lutar boxe. Um ano mais tarde, ao voltar dos
EUA, havia trocado o corte militar por uma vasta cabeleira.
De volta ao Brasil,
seguiu com suas pesquisas musicais, revolucionando e se renovando
a cada novo disco. Lançou em 1973 o disco A música
livre de Hermeto Pascoal e regressou três anos mais
tarde aos EUA para gravar o álbum Slaves Mass, que
conta com a participação de dois porcos - que, segundo
Hermeto, tiveram cada um o seu microfone, e os cachês devidamente
pagos. Em 1978 fez uma apresentação histórica
no Festival de Jazz de Montreux, registrada no álbum duplo
Ao Vivo em Montreux.
Ao longo de toda
a carreira, a criatividade de Hermeto tem se mostrado inesgotável.
Valendo-se de todo e qualquer tipo de objeto capaz de produzir
sons - além dos instrumentos convencionais, como saxofone,
bateria, piano, escaleta, flauta, violão, contrabaixo,
bombardino, sanfona, que toca magistralmente - Hermeto Pascoal
é uma força da natureza. Esse caráter experimentador
lhe valeu o apelido de "bruxo dos sons". Em Calendário
do Som (2000), chegou ao requinte de criar uma composição
diferente para cada dia do ano, homenageando assim todos os habitantes
do planeta. Essa obra sintetiza bem o caráter de Hermeto:
uma pessoa cordial, espontânea e generosa, para quem a música
não é um mero ganha-pão, mas sim um sacerdócio.
Fernando Jardim

|