Nascido na pequena vila de Minta, em Camarões, Richard Bona cresceu
em uma casa cheia de música. Seu avô era um percussionista e cantor
relativamente conhecido e sua mãe cantava amadoramente em casa e na Igreja.
Foi com ela e suas quatro irmãs que Bona começou a cantar ao quatro
anos de idade nas missas de domingo.
O músico conta que quando bebê costumava chorar muito sem qualquer
motivo aparente, até que um dia algum músico amigo da família
passou por lá com trazendo um balafon (uma espécie de xilofone
mais rudimentar usado originalmente por tribos africanas). Ao começar
a tocar, o menino que chorava inconsolável parou de chorar. Um pouco
maior, começou a juntar ripas de madeira de diversos tamanhos construindo
seu próprio balafon.
E foi assim com outros diversos instrumentos. Como não havia uma loja
de instrumentos em sua cidade, o menino passou a construir uma infinidade de
flautas de madeira, balafons e até um violão de seis cordas. Para
arrumar as cordas do violão, teve de passar algumas horas rodeando a
porta de uma bicicletaria, e quando o dono seu distraía, roubava o cabo
de freio tirado de alguma bicicleta.
Os dotes musicais do garoto logo viraram notícia na pequena cidade,
e Richard Bona passou a ser um dos mais requisitados para cantar em casamentos
e batizados. Mas não levou muito tempo para que o novo talento sentisse
a vontade de ser aventurar na cidade grande. Com onze anos de idade partiu para
Douala para morar com seu pai, conseguindo imediatamente convites para tocar.
Trocou seu violão caseiro por um alugado e passou a tocar regularmente
como profissional.
Sua vida mudou definitivamente em 1980 quando um francês que acabara
de abrir um hotel em sua cidade ouviu elogios rasgados sobre o jovem músico
que alguns dias depois contratava para montar e dirigir uma banda. Fanático
por jazz, o dono do hotel mostrou para Bona cerca 500 lps de jazz enfiados em
caixas e disse: aprenda essas músicas. O hotel providenciava
os instrumentos e Bona passou dias aprendendo a tocar os diversos instrumentos
e a ler e escrever música. O primeiro disco que Bona puxou aleatoriamente
de uma das caixas foi um lp do extraordinário Jaco
Pastorious que continha a faixa Portrait of Tracy. Antes
de ouvir o Jaco, jamais havia considerado tocar contrabaixo, relembra
o músico que passou a fazê-lo imediatamente.
Com a morte de seu pai Bona decidiu dar um passo maior e partiu para Paris.
Vestindo uma bermuda e uma camisa leve, chegou à Paris em pleno inverno.
O músico recorda: Quando abriu a porta do avião, havia neve
por todos os lados, eu que nem sequer conhecia inverno, batendo o queixo, quis
voltar imediatamente para casa. Mas um comissário de bordo deu-lhe
seu agasalho e o convenceu a não desistir de tentar a sorte naquela cidade.
Dentro de dois meses já estava trabalhando com importantes músicos,
franceses e africanos, como Didier Lockwood e Marc Ducret, Manu Dibango e Salif
Keita.
Ficou em Paris por sete anos até que recebeu um convite para uma visita
de quatro dias a Nova York e acabou ficando dois meses. No final do mesmo ano,
mudou-se definitivamente para lá. Ao chegar ligou para Joe Zawinul com
quem havia tocado anos antes em Paris e esse o convidou para participar da gravação
e a turnê de seu disco My People.
Multiinstrumentista, compositor, exímio contrabaixista e dono de uma
voz suave que mescla nas devidas proporções docura com uma ponta
de nostalgia, desde sua chegar à Nova York em 1995, Richar Bona já
tocou, gravou ou excursionou com: os guitarristas Larry Coryell, Mike Stern
e Pat Metheny, pianistas Joe Zawinul,
Herbie Hancock, Chick
Corea, Jacky Terrasson e Bob
James, os saxofonistas Sadao Watanabe, Branford Marsalis e David Sanborn, a
violinista Regina Carter, o vocalista Bobby McFerrin e o trompetista Randy Brecker
Fernando Jardim