|
|
J.E.Berendt e outros - História do Jazz (Abril Cultural)
|
Keith Jarrett (n.1945) > piano, órgão
Keith
Jarrett é um indiscutível mestre
do piano jazzístico contemporâneo.
Grosso modo, poderíamos situar os pianistas
surgidos no jazz a partir do anos 60 num espectro
que tem num dos pólos Keith Jarrett, e
no outro, Chick Corea.
Menino
prodígio musical, Jarrett começou
a tocar piano aos três anos de idade; fez
um recital aos sete anos; e já era músico
profissional ainda adolescente. Em 1962 entrou
para a Berklee School of Music e logo estava liderando
seu próprio grupo. Em 1965 mudou-se para
Nova Iorque. Passou alguns meses com os Jazz Messengers
de Art Blakey e depois ficou de 1966 a 1969 com
o Charles Lloyd Quartet. Tocou entre 1969 e 1971
com Miles
Davis, no histórico grupo que fundou
o jazz-rock
(em 1969, dividia a cena com Corea), e após
esse período lançou-se definitivamente
na carreira solo.
Jarrett
passou quase toda a carreira gravando para o selo
ECM, do qual é muito provavelmente a estrela
máxima. O resultado é uma volumosa
obra discográfica. Em 1983, já consagrado,
formou, com o contrabaixista Gary Peacock e o
baterista Jack DeJohnette, um trio para a gravação
dos dois volumes de Standards (o segundo
volume saiu em 1985), grupo esse que se mantém
ativo até hoje. O Jarrett Standards
Trio, como é informalmente conhecido,
veio a se tornar efetivamente um ponto de referência
dentro da música contemporânea de
câmara.
Jarrett
tem preferência por tocar como solista ou
em pequenas formações. Ao contrário
de Chick Corea, nunca abandona o som acústico,
desde que deixou o grupo de Miles
Davis em 1971. Realizou até mesmo incursões
ao órgão de tubos (por exemplo em
Hymns / Spheres). Sente-se também
perfeitamente à vontade realizando sistematicamente
apresentações e gravações
como solista clássico, tocando Bach e Mozart,
entre outros.
Jarrett
possui uma maneira de tocar muito pessoal. Não
é um interprete conciso: ao contrário,
é dado a longas digressões, e muitas
de suas peças são improvisos livres,
mesclando trechos de caráter quase erudito
(particularmente pseudo-barroco ou pseudo-clássico)
com outros de sabor minimalista e com passagens
decididamente jazzísticas. Ocasionalmente,
faz citações de outros temas. O
fato de Jarrett propor várias de suas execuções
como improvisos livres tem um lado simpático,
na medida em que cada peça é única,
não só na "interpretação"
(o que, de resto, ocorre com todo o jazz) mas
na própria concepção da peça,
que acaba sendo resultado irrepetível de
um lugar, um momento e uma platéia específica.
Por outro lado, porém, essa abordagem provoca,
em alguns casos, um certo descuido com a forma:
as peças resultam prolixas, às vezes
repetitivas, estendem-se mais do que seria desejável.
Na
música de Jarrett podemos encontrar alguns
elementos característicos. Primeiro, ele
tem atração pelos ostinatos
em andamento moderado, que estabelecem um clima
hipnótico. Segundo, principalmente nos
trechos lentos, procura deixar soar os acordes,
valorizando suas ressonâncias. Terceiro,
Jarrett gosta de explorar os desdobramentos de
melodias simples, líricas e cantantes.
Quarto, nas peças rápidas, as frases
entrecortadas emitidas no calor do improviso não
costumam ser tocadas pela mão direita na
região aguda do teclado, como seria usual,
mas sim na região média.
Porém
o aspecto mais importante da música jarrettiana
talvez não esteja nas características
do seu "estilo" de tocar, que acabamos
de mencionar, ou de sua técnica pianística,
mas sim no seu pensamento musical - no plano cognitivo,
por assim dizer. Refiro-me a um aspecto em particular:
Jarrett é um mestre do understatement:
o que ele deixa de tocar, o que ele apenas
sugere assume, talvez, importância
tão grande quanto o que ele efetivamente
toca. Isso fica especialmente claro quando
ele interpreta standards. É como
se ele nos levasse a imaginar, dentro de um espaço
"dual" ao espaço sonoro no qual
se dá o discurso musical propriamente dito,
as notas subentendidas, as frases não articuladas,
os caminhos não tomados.
As
interpretações de Jarrett são
temperadas por leves excentricidades cênicas.
Ele tem, por exemplo, o costume de murmurar ou
cantarolar enquanto toca, a exemplo do que fazia
o notável pianista clássico Glenn
Gould. Ocasionalmente, também se levanta
da banqueta para tocar de pé, etc. No entanto,
assim como ocorria com Gould, tais excentricidades
ficam em segundo plano, nunca chegando a ofuscar
o compromisso total de Jarrett com a música.
(V.A. Bezerra, 2001)

|