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LP Gigantes do Jazz - Louis Armstrong (Abril Cultural)
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Louis Armstrong (1901-1971) > trompete, voz
Louis Armstrong é,
sem dúvida, o músico de jazz mais
conhecido do público em todo o mundo. Foi
chamado de "a personificação
do jazz". Seu retrato e sua voz são
inconfundíveis, até para quem não
é aficionado do jazz.
Nascido em Storyville,
o distrito de New Orleans famoso por seu ambiente,
digamos, diversificado, que incluía de
bordéis até igrejas, passando por
espeluncas diversas, Louis Daniel Armstrong passou
a infância mergulhado em grande pobreza.
Seu pai abandonou a família asssim que
Louis nasceu. Dividindo seu tempo entre a liberdade
das ruas e o trabalho para ajudar a família,
o pequeno Louis tornou-se uma criança extremamente
esperta e adaptada à vida difícil.
Conseguiu comprar uma corneta e, sozinho, começou
a aprender a tocá-la. Também cantava
com um grupo pelas ruas para ganhar uns trocados
a mais. Na noite do ano novo de 1912, por brincadeira,
atirou para o alto com um revólver, e por
isso foi enviado a um reformatório, onde
passaria um ano e meio. Curiosamente, foi essa
temporada no reformatório que o fez ter
um contato intensivo com a música, tocando
bugle e corneta na banda da instituição.
Ali também começou a aprender harmonia.
De volta à liberdade, fez diversos bicos
para se sustentar, e aproveitava cada oportunidade
para emprestar uma corneta e tocar onde fosse
possível, dentre as inúmeras bandas
que pululavam por New Orleans - uma música
que, no entanto, ainda não era o jazz.
A extraordinária
musicalidade inata de Armstrong, somada à
disciplina técnica que havia adquirido
na banda do reformatório, capacitaram-no
a tocar num estilo pessoal, incisivo e virtuosístico
que ultrapassava o estilo reinante em New Orleans
naquele tempo. Por volta de 1917, Joe King
Oliver, percebendo o talento do jovem, tomou Armstrong
sob sua proteção, e quando foi para
Chicago em 1918, recomendou Armstrong para substituí-lo
na banda de Kid Ory. Louis tocou com a banda de
Fate Marable entre 1919 e 1921, e em 1922 foi
para Chicago para se juntar novamente a Oliver.
Em 1924 casou-se com Lillian Hardin, a pianista
do conjunto de Oliver (a segunda de suas quatro
esposas). Por incentivo de Lil, Louis deixou Oliver
e entrou para a orquestra de Fletcher Henderson
em Nova Iorque, com quem ficaria pouco mais de
um ano.
A estréia
de Armstrong como líder se deu em 12 de
novembro de 1925. Nos anos seguintes, Armstrong
gravaria muito, com os Hot Five de 1925-1926,
os Hot Seven de 1927 e os Hot Five
de 1928 - os melhores (com seis integrantes),
com Earl Hines ao piano. Toda essa série
de gravações é absolutamente
antológica, e ocupa um lugar central na
história do jazz. Nelas, o gênio
de Armstrong se revela em sua plenitude. Durante
esse período, Armstrong também trabalhou
com inúmeras orquestras. Foi por essa época
que ele trocou definitivamente a corneta pelo
trompete. A partir de 1929, Armstrong deixa os
conjuntos pequenos e passa dezenove anos trabalhando
apenas à frente de grandes orquestras,
sempre como estrela absoluta. Em 1932 e 1933 fez
suas primeiras turnês pela Europa. Em 1938
Louis e Lilian se divorciam e ele se casa com
Alpha Smith. Em 1942 casa-se com Lucille Wilson,
que seria sua esposa até o fim da vida.
Nos anos 40, especialmente com o declínio
do swing
no pós-guerra, a música de Armstrong
começou a ser considerada pelo público
como um tanto fora de moda. Em 1948 forma o Louis
Armstrong and His All Stars, um sexteto de
grandes músicos, nos moldes do seu segundo
Hot Five, agora com a participação
do ex-clarinetista de Duke
Ellington, Barney Bigard, o notável
trombonista Jack Teagarden, o baixista Arvel Shaw,
o grande baterista Sid Catlett, e o mestre Earl
Hines ao piano. Esse conjunto se revela o contexto
ideal para a arte de Armstrong, e com ele faz
turnês por todo o mundo. No entanto, com
o passar do tempo, ocorreram sucessivas mudanças
no pessoal dos All Stars, o padrão
musical caiu sensivelmente, e a música
se tornou mais previsível.
Nos anos 50 e 60,
Armstrong se tornou uma celebridade sem paralelo
no mundo da música popular, graças
não só às suas turnês
e gravações, mas também,
às suas participações em
filmes. Apesar de ter sofrido um ataque cardíaco
em 1959, continuou ativo e realizando turnês.
Enfrentou algumas críticas por parte dos
ativistas negros norte-americanos, pelo fato de
não militar mais ativamente no movimento
dos direitos civis. Porém é preciso
lembrar que, naquela época, Louis já
se aproximava dos 60 anos de idade, e pertencia
a uma geração diferente daquela
que estava assumindo a linha de frente dos protestos
e da militância no final dos anos 50 e ao
longo dos anos 60. Armstrong trabalhou até
os seus últimos dias, e morreu dormindo
em sua casa, em Nova Iorque, em 6 de julho de
1971.
Numa avaliação
objetiva, no plano musical, toda a fama de Armstrong,
de proporções quase mitológicas,
é plenamente merecida. Ele efetivamente
redefiniu o jazz, e foi o seu primeiro grande
virtuose. Em primeiro lugar, Armstrong expandiu
os limites de seu instrumento, ampliando a extensão
do trompete até notas consideradas inacessíveis
aos executantes anteriores, de tão agudas.
Seu som é límpido e quente, com
um vibrato absolutamente regular nos finais de
frases, como poucos na história do jazz.
Seu fraseado é admiravelmente focalizado
e, acima de tudo, inventivo: Armstrong inicia
e termina suas frases em pontos que nunca são
óbvios. Sua improvisação
nos depara uma imaginação que parece
inesgotável. A influência de Armstrong
pode ter sido mais direta ou indireta, dependendo
das épocas e dos estilos em voga, porém
nunca desapareceu completamente; está presente
em todo o jazz. A maioria dos trompetistas que
vieram depois de Armstrong têm alguma dívida
para com ele.
Com o passar dos
anos, Louis começou a cantar cada vez mais,
às vezes até mais do que tocar,
e foi principalmente essa imagem que ficou gravada
no inconsciente coletivo - a de cantor e entertainer,
mais do que trompetista. Alguns críticos
consideram a propensão cada vez maior de
Armstrong para cantar como um sinal claro de declínio
ou acomodação no plano musical.
Porém é preciso entender o canto
de Armstrong como sendo mais uma faceta de seu
talento, que já se manifestava em algum
grau desde os anos 20. Com uma voz singular e
sem paralelo na história da música
- embora se tenha freqüentemente tentado
imitá-la - Armstrong era um grande cantor.
O timbre rouco e grave teria sido considerado
esdrúxulo em qualquer outro contexto, porém
para o jazz se mostrava um instrumento admirável.
A entonação aparentemente preguiçosa
escondia um timing perfeito e um senso rítmico
impecável, que dava a cada frase o recorte
perfeito. Uma outra característica única
da voz de Armstrong era a maneira pela qual ele
mantinha o vibrato mesmo nas consoantes finais
das palavras (ar-r-r-r-r, is-z-z-z-z,
etc). Finalmente, deve-se destacar que ele era
um cantor imensamente expressivo, que valorizava
cada verso da letra na medida exata.
Acima de tudo, Armstrong
demonstrou, ao longo de toda a carreira, possuir
uma personalidade generosa, em termos tanto humanos
como musicais.
Veja especial sobre centésimo aniversário de nascimento de Louis Armstrong.
(V.A. Bezerra, 2001)

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