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Fusion e Jazz-rock

Nascido na virada dos anos 60 para os 70, o jazz-rock acabaria por se tornar, nos anos 70 e 80, sob o nome de fusion, um gênero de enorme sucesso comercial, porém bastante controverso entre os apreciadores de jazz, especialmente entre os fãs mais apegados a uma concepção estrita de jazz.

O jazz-rock nasce com o álbum duplo de Miles Davis, de 1969, intitulado Bitches Brew. É verdade que podem ser encontrados alguns precursores do jazz-rock, dois ou três anos antes disso, como o grupo Free Spirits de Larry Coryell, o grupo do vibrafonista Gary Burton e também o Charles Lloyd Quartet (que incluía Keith Jarrett e Jack DeJohnette). Porém, o álbum duplo de Miles é a obra que cristaliza a revolução. Para essa gravação, Miles convocou um grupo numeroso de músicos que viriam a se tornar, quase todos, figuras de proa do jazz-rock dos anos 70 em diante, bem como líderes dos principais conjuntos desse estilo. Encontramos ali o guitarrista John McLaughlin, que iria formar a Mahavishnu Orchestra; o pianista Chick Corea, que iria liderar as diversas formações do Return to Forever; o tecladista Joe Zawinul, que iria fundar o célebre Weather Report; e diversos músicos do primeiro time, como o saxofonista Wayne Shorter, o organista Larry Young, o baixista Dave Holland, e o baterista Jack DeJohnette, entre outros. (O baterista Tony Williams, que havia tocado com Miles até In a Silent Way - o disco que é, estética e cronologicamente, um prelúdio a Bitches Brew - formaria o grupo Lifetime. O tecladista Herbie Hancock, que tocou antes e depois de Bitches Brew - mas não no próprio - formaria o Headhunters.)

O disco de Miles constitui uma experiência jazzística perfeitamente válida e plenamente realizada. Existe, porém, uma diferença muito grande entre o jazz-rock proposto por Miles e a música que se lhe seguiu, tentando trilhar o caminho por ele aberto. E aqui estamos falando não só de outros músicos, mas também do próprio Miles, que se encaminhou cada vez mais na direção do funk (embora o som de seu trompete tenha permanecido inconfundível). Nos anos 70, o jazz-rock (então já rebatizado como fusion) começou a efetuar um movimento de aproximação cada vez maior com o rock; depois, nos anos 80, com a música pop de caráter mais comercial. O som acústico cedeu quase que totalmente o lugar aos instrumentos eletrônicos. Em algum ponto desse percurso, o jazz-rock deixou de ser um terreno de experimentação radical e vital. Existem alguns indicadores estritamente musicais e perfeitamente objetivos dessa perda de identidade jazzística.

Primeiro, o swing jazzístico se perdeu, dando lugar a ritmos mais “quadrados” e óbvios. As síncopas, quando existem, são relativamente rudimentares. Segundo, fez-se tabula rasa da grande tradição do canto jazzístico. As atuações das vocalistas (e dos vocalistas) da fusion, com raríssimas exceções, são pífias. Todas as nuances na exposição de um tema, todos os matizes timbrísticos, todos os desenhos melódicos detalhados, toda a coerência na improvisação - tudo isso desapareceu. É difícil entender como alguns excelentes músicos da fusion, que anos antes haviam acompanhado grandes cantoras e cantores de jazz, podem ter consentido em acompanhar determinadas(os) vocalistas. Pior: não poucos deles resolveram cantar - sem ter a menor noção de como fazê-lo.

Não se pode negar que existiram inúmeros músicos da mais alta competência técnica na fusion, principalmente nos anos 70 (alguns dos quais ainda bastante ativos). Além daqueles citados acima, que tocaram com Miles, podemos citar ainda o guitarrista Pat Metheny, o violinista Jean-Luc Ponty, o baterista Billy Cobham, o tecladista George Duke, os baixistas Jaco Pastorius e Stanley Clarke, para ficar apenas nos mais conhecidos. Também é justo admitir que certos conjuntos eram verdadeiras máquinas instrumentais, em termos de energia, entrosamento e sofisticação. Porém essa qualidade técnica raramente veio acompanhada de profundidade e coerência propriamente jazzísticas.

Já nos anos 80 é difícil evitar o diagnóstico segundo o qual a fusion entrou de vez em uma “fase degenerativa”. Grupos como Spyro Gyra e Yellowjackets transformaram-se em porta-vozes de um tipo de pseudo-jazz, onde se faz uso farto de clichês, tanto melódicos como harmônicos e rítmicos. Enquanto isso, a Elektric Band de Chick Corea ainda procurava fazer uma música com muitos watts mas com alguma substância musical, embora já longe do jazz. (Curiosamente, Corea sempre levou uma espécie de “vida dupla”, com um pé na fusion e outro no mainstream.) A retomada, nessa mesma década, do hard bop, do mainstream e do som acústico pelos chamados “young lions” capitaneados por Wynton Marsalis, reduziu apreciavelmente o espaço da fusion. Nos anos 90, a fusion se reacomodou dentro de um espaço mais reduzido do que desfrutava nos anos 70, e voltou suas antenas na direção do rap e do hip-hop. Representantes modernos incluem os DJs do acid jazz e grupos como o trio Medeski, Martin & Wood.

A conclusão a que se chega, após uma análise do jazz-rock em termos musicais, é que as primeiras obras de jazz-rock que possuem validade enquanto jazz são também as últimas, a saber, as gravações de Miles na virada dos anos 60 para os 70. Depois disso, com o advento da fusion, temos uma fase em que se fez música de qualidade mas que foi perdendo a identidade jazzística e, mais tarde, uma fase em que a própria qualidade musical sofreu uma queda pronunciada.

Certamente, levantar questões é algo em princípio muito salutar. Porém o fato é que as perguntas colocadas pelo jazz-rock em suas origens acabaram se avolumando e se transformando em verdadeiros dilemas para o jazz fusion - dilemas dos quais ele não conseguiu sair, nem tampouco dar-lhes uma resposta satisfatória. Sentimo-nos tentados a imaginar no que se transformaria o jazz-rock se houvesse seguido uma trajetória mais eqüidistante dos dois gêneros que lhe deram origem, ou então se tivesse trilhado um caminho mais próximo do jazz. Mas a vida e a história não se dão no modo subjuntivo...

(V.A. Bezerra, 2001)

EXPOENTES
Airto Moreira
Billy Cobham
Charlie Haden
Chick Corea
Cuca Teixeira
Dave Holland
Egberto Gismonti
Herbie Hancock
Hermeto Pascoal
Jaco Pastorius
Jean-Luc Ponty
John McLaughlin
Keith Jarrett
Mahavishnu Orchestra
Michael Brecker
Michel Leme
Miles Davis
Naná Vasconcelos
Nico Assumpção
Pat Metheny
Return to Forever
Ron Carter
Thiago do Espírito Santo
Tony Williams
Wayne Shorter
Weather Report
Wynton Marsalis
 
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