Em meio a caixas de frutas recheadas de CDs e LPs, Carlos
Conde, produtor e apresentador do programa Jazz Concert
(Rádio Cultura FM), recebeu a reportagem do EJAZZ
para uma longa conversa. Há quase quinze anos
à frente do programa de jazz mais respeitado
do Radio brasileiro, Conde tem um grande conhecimento
da música negra norte-americana, discorrendo
com vontade sobre os temas propostos pelo EJAZZ.
Respeitando
antes de tudo aqueles jazzistas que têm como lema
"devoção, seriedade, e amor à
arte", Conde tem opiniões bastante contundentes
sobre os artistas que "acendem uma vela a Deus
e outra ao Diabo" e transitam entre a tradição
do jazz e a facilidade do pop.
Eu gostaria
que o Sr. nos contasse como surgiu o seu interesse pelo
jazz...
Eu
sou de uma geração que acompanhou o cinema
americano na sua fase áurea, principalmente nas
décadas de 40 e 50. Nessa época, a música
americana predominava no nosso rádio e no cinema,
e a gente não aprendia a dançar com o
lixo musical que existe hoje, mas com Glenn Miller,
Tommy Dorsey, Harry James, Artie Shaw, Benny Goodman
e daí pra fora... Teve gente que ficou só
nessa área e depois de cinqüenta anos continua
ouvindo as orquestras das décadas de 30 e 40,
mas aqueles que tinham uma certa sintonia com a música,
acabavam gostando das big-bands americanas e descobriram
que existia o jazz. E eu tive a sorte de descobrir,
no final da década de 40, que existia Charlie
Parker (foto), Dizzy Gillespie, George Shearing, Lennie
Tristano, Benny Godman...
Eu comecei
a comprar discos com as big-bands e acabei passando, através
do Benny Goodman, para os pequenos conjuntos. Na época
tinha o Charlie Christian, começou a aparecer o
George Shearing, e também os conjuntos de bebop
a gente sentia uma diferença entre os conjuntos
de bebop e o swing das big-bands. De 1950 em diante, eu
já estava com o jazz e só vim acompanhando.
Conte-nos
como surgiu o programa Jazz Concert...
Eu comecei
a fazer esse programa na Radio Cultura FM em 1986
foi ao ar em fevereiro de 1987, e graças a Deus
está completando 15 anos! Quando começou
era na sexta-feira, da meia-noite às duas. Era
um horário muito sacrificado, então depois
passou para sexta e sábado, da meia-noite à
uma hora. Mas os ouvintes sempre escreveram reclamando
que era muito tarde, então há uns dois anos
passamos para o horário das onze da noite, e tem
aumentado muito a correspondência. Eu recebo uma
série de cartas de apoio, sugestões, pedidos
de músicas principalmente agora que tem
o e-mail.
Eu
posso otimisticamente concluir que o programa tem agradado,
porque eu já tive a satisfação de
ganhar dois prêmios da APCA. Em 1991, o nosso programa
foi escolhido o Melhor Programa de Música
em FM, e em 1999, no ano do centenário do
Duke Ellington, nós ganhamos pela série
que eu fiz de um mês, toda dedicada às composições
do Duke Ellington (foto).
E que tipo
de música seus ouvintes mais gostam?
Eu percebi
que muita gente gostava de música instrumental,
e muita gente gostava de música vocal, então
eu procuro, com certa freqüência, manter música
instrumental na sexta e música vocal no sábado.
Quando não há grande interesse pelo vocal,
eu procuro pôr música um pouco mais suave
no sábado, como trios de piano, e uma música
um pouco mais pesada na sexta. E tem dado certo, graças
a Deus.
Eu gosto
de mostrar as novidades fonográficas e principalmente
os artistas que o grande público não conhece,
não tem contato muito freqüente. Se você
pega o músico brasileiro, por exemplo, você
nota que ele gosta de três ou quatro pianistas americanos
Herbie Hancock, Bill Evans, Chick Corea
mas pouca gente conhece os pianistas bons, principalmente
o pessoal que toca em Nova York, e que não chega
muito por aqui...
Na sua opinião,
quais os músicos que estão despontando que
o Sr. considera mais importantes, que têm perspectivas
de que sua obra permaneça?
O
final dos anos 60 e os anos 70 foram muito ingratos pro
jazz porque a tal da fusion tomou conta do mercado e o
jazz ficou seriamente prejudicado na sua essência
pelo uso de instrumentos eletrônicos principalmente
piano e contra-baixo, que têm um som altamente desagradável
e segundo alguns jazzistas veteranos, não devia
ser utilizado para jazz. Então há uma série
de músicos comerciantes, que nos últimos
10 ou 15 anos tem feito os dois tipos de música:
a boa e a ruim como é o caso do Chick Corea,
do Herbie Hancock, do George Benson, do George Duke, do
próprio Wayne
Shorter (foto), que é um grande saxofonista,
dos irmãos Randy e Michael Brecker, de todo esse
pessoal. Eu brinco muito quando eu apresento o problema,
que esses músicos são como aquelas pessoas
que acendem uma vela a Deus e outra ao Diabo. Esses que
eu falei são exemplos típicos disso aí,
e alguns infelizmente deixaram de acender a vela a Deus
e ficaram só com o lado ruim como é
o caso de um excelente pianista chamado Joe Sample, que
gravou dois discos de jazz e hoje só toca pop,
ou do Stanley Clarke, que é um excelente músico
de jazz, mas deixou que o vil metal o corrompesse e ficou
no rock.
Mas nos anos
80, aconteceu uma coisa muito simpática no jazz,
que foi o surgimento da família Marsalis
começou com o Wynton Marsalis e com o Brandford
Marsalis, no conjunto do Art Blakey, que sempre foi um
celeiro de craques. E no final dos anos 70, esse pessoal
voltou a tocar jazz sério, jazz puro, acústico,
e trouxe consigo uma nova geração. E hoje
há muitos outros, como o Marlon Jordan, o Nicholas
Payton, o Joshua Redman, ou o Chris Potter, que são
músicos novos, que tocam jazz sério, uma
música de altíssima qualidade. Nesse período
surgiu a expressão young lions, que
acabou designando essa turma nova, séria, que se
veste de paletó e gravata, corta o cabelo certinho
e não faz aquele ninho de minhoca na cabeça...
Tem uma geração
enorme de músicos novos, principalmente em Nova
York nos últimos 50 anos, no jazz americano,
tudo começou em Nova York. Como diz a música
famosa do Frank Sinatra: if you cant make
it there, you cant make it anywhere... Se
o cara não conseguir fazer sucesso em Nova York,
não vai ser conhecido em lugar nenhum!
Tem
um saxofonista que foi o segundo colocado naquele famoso
concurso da fundação Thelonious
Monk (foto), no ano em que o Joshua Redman foi o primeiro,
que se chama Eric Alexander. Esse camarada é um
saxofonista excepcional, é espetacular mesmo! Já
gravou mais de 20 CDs, mas é praticamente desconhecido
do grande público. Eu nunca vi menção
a ele em revistas européias, e no Brasil então
ninguém sabe quem é! E esse cara tem um
talento extraordinário! Lá nos Estados Unidos
ele faz um relativo sucesso, tem um pouco de nome lá
em Nova York, mas só toca nas boates menos conhecidas,
ele nunca aparece no Bluenote ou no Village Vanguard.
Então
o Sr. diria que tem havido uma revalorização
da tradição e dos padrões clássicos...
Nas últimas
duas décadas tem havido uma valorização
da tradição da música que nasceu
na década de 40, que era o bebop e evoluiu para
o hardbop. O irônico em relação a
isto é que a evolução do bebop, que
hoje se chama hardbop, passou a ser chamado de jazz tradicional.
Isso aconteceu porque o free-jazz, o avant-garde e o fusion,
que não se confundem, querem aparecer como sendo
a música do momento o free-jazz e o avant-garde
acham que o hardbop é uma acomodação
de um estilo que já tem 50 anos, por isso que eles
chamam de tradicional; e o fusion, porque querem mostrar
que aquela música super comercial que eles fazem
é que é o jazz bom como Pat Metheny,
Lee Ritenour, Herbie Hancock, Chick Corea, George Benson,
Kenny G... Tinha alguns que sabiam fazer as duas coisas,
como o Stanley Clarke, o Stanley Turrentine, o Grover
Washington Jr. e o George Benson que sabe tocar
guitarra muito bem, mas agora está praticamente
cantando, porque o camarada acaba não resistindo
à tentação de ganhar dinheiro.
Como o Sr.
definiria então essa tendência dessa turma
boa que está resgatando um pouco o jazz tradicional...
Algumas
das palavras que os definiriam são: devoção,
seriedade, e amor à arte. O Wynton
Marsalis (foto), que é o maior pistonista que
apareceu na segunda metade do século passado, um
camarada de uma categoria excepcional, que ganhou prêmios
tocando música erudita e ganhou prêmios tocando
jazz: por que ele não apela? Ele não toca
aquela música para um grande público que
fica berrando... Ele nasceu em New Orleans, que é
o berço do jazz, teve um pai que é um grande
músico e um grande professor de piano, que ensinou
pra ele os valores verdadeiros, e o camarada não
se afastou desses valores. Existe uma certa porcentagem,
talvez seja minoria, que teve convicção
de não se afastar dos valores certos, ideais, do
jazz.
Então
de certa forma eles não estão criando nada
de novo, só retomando...
De fato,
pouca coisa nesse estilo de música poderia ser
considerado criação. Os grandes criadores
estão morrendo, ou estão quase todos mortos,
infelizmente. Tem um camarada que se chama George Russell,
que tem pouco mais de 40 anos de carreira, e esse camarada
está vivo e é um inovador tremendo
na minha opinião, é o maior inovador do
jazz moderno nos últimos 50 anos. Teve o John Lewis,
do Modern Jazz Quartet, que eu não achava muito
feliz, porque tentou conjugar a música erudita
com o jazz e acabou criando o jazz rococó, mas
ajudou muito na evolução do jazz moderno
nesses últimos 40 anos. O Charles Mingus, que morreu
há quase 20 anos, foi um tremendo compositor, assim
como o Thelonious Monk, que foi super combatido quando
estava vivo, e hoje é homenageado como gênio.
Todo mundo ria dele, diziam que ele não sabia tocar
piano, que seu piano era estranho e angular... Na época
isso desagradava o ouvido dos críticos, e hoje
é venerado.