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entrevista

CARLOS CONDE: um divulgador do "novo jazz clássico"

Parte II


O Igor Stravinski, quando deu uma entrevista ao Robert Craft, disse que o jazz é um discurso completamente diferente da música erudita, composta em partitura, e que quando o jazz procura se deixar influenciar pela música erudita, não é jazz, e não é bom. Eu gostaria de saber como o Sr. avalia a third stream, essa escola que procura fazer uma relação entre a música clássica e o jazz.

O third stream é um negócio seríssimo, maravilhoso, e só não teve o sucesso paralelo ao do bebop e do jazz moderno pela dificuldade do público entender, e pela maneira como os críticos combateram a third stream – porque achavam que era uma tentativa de transformar o jazz em música clássica, mas não era: era uma maneira de transformar o jazz em música mais séria do que era, e gerou produções maravilhosas.

O Duke Ellington é praticamente o inventor do third stream, embora ele nunca tenha usado a expressão nem tenha sido classificado como third stream. Foi ele que inventou a composição longa no jazz: ele começou escrevendo músicas de seis, sete minutos, depois passou a escrever suites, das quais a mais conhecida é Black, Brown and Beige (foto), da década de 40, que é uma verdadeira obra-prima. O Duke Ellington acabou escrevendo mais de 30 suítes, produziu nessa área mais do que qualquer outro.

Houve também um pioneiro, que a meu ver merece o mesmo respeito que o Ellington, que foi o George Gershwin (foto). Ele compôs a Rhapsody in Blue, uma obra-prima que não tem o respeito que merece, e escreveu aquela maravilha que é Porgy and Bess – na época em que foi representada nos Estados Unidos, foi super pixada! Todo mundo achou uma pretensão descabida o Gershwin tentar escrever uma ópera, escrever uma ópera negra e escrever uma ópera com influência da música de jazz e religiosa. Hoje, se você assiste uma representação do Porgy and Bess, quer por intérpretes jazzísticos, quer por intérpretes de música lírica, é sempre uma maravilha!

A primeira suíte na área do jazz moderno, Summer Sequence, foi escrita para a orquestra do Woody Hermann, pelo pianista dele, que se chama Ralph Burns. É uma obra super jazzística, que foi a mola que impulsionou carreira do Stan Getz – ele fez um solo no quarto movimento que é fabuloso! O John Lewis e o Gunther Schüller, que foram praticamente os introdutores da third stream, acabaram sendo superados por obras fabulosas de outros compositores – o John Lewis, na maioria das composições dele, perdeu a linguagem jazzística.

O Oliver Nelson também escreveu um monte de suítes, como a Jazzhattan Suite, assim como o George Russell – vocês já ouviram uma composição do George Russell chamada New York, New York? É fabulosa! Vou colocar para vocês ouvirem...  Eu tentei pôr isso no meu programa há uns cinco anos atrás, mas infelizmente não teve retorno...

Então o sr. acha que como projeto estético para o jazz, é valida essa tentativa de trazer complexidade, de trazer uma consciência de forma, de estrutura...

Eu não só acho válida como acho ideal! Eu sempre gostei de dizer que o jazz vai ser a música erudita do século XXI, principalmente a música do George Russell, do Lennie Tristano, do Charles Mingus (foto), do Thelonious Monk, do Oliver Nelson, do Ralph Burns, do Benny Alban, de todos esses caras... Hoje está começando a aparecer a orquestra sinfônica executando peças de jazz...

Eu participei duas vezes da convenção da International Association of Jazz Education, que se realiza nos Estados Unidos anualmente. Nessa convenção tem sempre uma composição desse tipo, de autoria de compositores desconhecidos, jovens, que são financiados por empresas para apresentarem suas suítes na convenção. Além disso, todas as grandes bandas se apresentam na convenção, e algumas também apresentam peças longas. No último ano, eles levaram a Metropol Orchestra, da Holanda, com mais de 60 integrantes, que deu dois shows espetaculares – inclusive o primeiro foi uma suíte composta pelo Randy Brecker e pelo Michael Brecker, com eles interpretantdo determinadas partes. Então há ocasiões em que os americanos continuam cultivando isso, só que o grande público não tem conhecimento. E não foram todas que foram editadas em disco...

Que tipo de disco de jazz o Sr. compra? Tudo que é lançado?

Não dá pra comprar tudo, você tem que comprar aquilo que você gosta! O que eu tenho aqui é limitadíssimo! Eu não compro fusion, não compro piano elétrico, não compro sax soprano – o sax soprano só entra porque depois do Coltrane a maioria dos saxofonistas começou a tocar soprano também, mas eu tenho horror a sax soprano. Se tiver piano elétrico, normalmente eu evito.

Passando a nossa conversa um pouco para o Brasil: como é que o Sr. avalia a obra do Victor Assis Brasil?

Pra mim, é o maior músico de jazz que o Brasil já deu. Sem dúvida alguma, foi um desaparecimento super prematuro, tristíssimo, porque o Victor (foto) era um camarada maravilhoso. Quando ele chegou foi uma explosão de talento e qualidade que o Brasil nunca tinha tido igual, sem dúvida nenhuma foi o maior músico de jazz que surgiu no Brasil.

Existe jazz brasileiro ou os músicos de jazz no Brasil tocam jazz americano?

Existiu o jazz brasileiro na década de 40 e 50. Eu ouvi músicos sensacionais, como o Cipó, chamado de Maestro Cipó, que além de saxofonista era regente de orquestra e arranjador. Havia um número enorme de músicos naquela época, porém quando a bossa nova assumiu o comando da música brasileira, entrou em voga o estilo da bossa nova instrumental, que era um misto de jazz com música brasileira. Então o jazz brasileiro passou a se apresentar quase que unicamente com música brasileira; o pessoal parou de tocar jazz e passou a improvisar só com música brasileira – o que às vezes gerou coisas maravilhosas, como é o caso do J.T. Meirelles, que teve um CD relançado agora. Ele é um saxofonista sensacional, flautista, arranjador, e tocava jazz maravilhosamente. Mas com o advento da bossa nova, passou a tocar música brasileira instrumental. Mas essa música brasileira instrumental, improvisada, contemporânea, seria a contribuição brasileira para o jazz...

Entrevista realizada por André Gattaz e Valter Bezerra em 20/setembro/2001.

 

apoio cultural




“Pensaram que a third stream era uma tentativa de aproximar o jazz da música clássica, mas não era. Era uma tentativa de transformar o jazz em uma música mais séria.”

As tentativas de aproximação entre a música clássica e o jazz na third stream,as diferenças entre Dizzy Gillespie e Charlie Parker, a obra de George Russell e muito mais.

leia primeira parte da entrevista

 

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