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entrevista
CHARLIE PARKER E PAUL DESMOND: admiração mútua

Parte I


Nesta entrevista dois dos maiores representantes do sax alto, os geniais, Charlie Parker e Paul Desmond, discutem suas concepções musicais, suas influências, a evolução do jazz, e deixam clara a admiração mútua.

Na primeira parte da entrevista, o impacto do som novo de Parker, sua visão da música e a importância do estudo.

(Charlie Parker entrevistado pelo radialista John McLellan e o sax alto Paul Desmond na rádio pública (WHDH) de Boston em janeiro de 1954, quando Bird fazia uma temporada de duas semanas naquela cidade.)



M:
Tem muita gente boa naquele disco, mas o estilo do sax alto é completamente diferente de todas as outras no disco ou que se tinha ouvido antes. Você tinha noção do impacto que causaria no jazz? Que você iria mudar completamente a cena nos próximos dez anos?

P: Vamos por dessa maneira: não. Não tinha idéia de que era tão diferente.

M: Eu gostaria de fazer uma pergunta, se possível. Gostaria de saber por que houve essa mudança violenta. Afinal de contas até então o estilo de tocar o sax alto era o estilo de Johnny Hodges e Benny Carter, e essa parece uma concepção completamente nova, não só de tocar o sax alto, mas música em geral.

P: Acho que não há uma resposta clara.

D: ...é da mesma maneira que você come ou respira!?

P: É o que eu sempre digo, essa foi minha primeira concepção, é a maneira como pensei que as coisas deveriam ser e continuo achando. Quer dizer, a música pode ser sempre evoluída. Muito provavelmente nos próximos 25 ou 50 anos algum jovem vai aparecer pegar a música e realmente fazer algo novo com ela. Mas desde sempre, achei deveria ser muito clara e precisa- principalmente precisa- e de alguma maneira acessível às pessoas, algo bonito, saca? Certamente há histórias e mais histórias que podem ser contadas no idioma musical- provavelmente idioma não é a melhor palavra, mas é tão difícil descrever música de outra maneira que não seja básica- música é basicamente melodia, harmonia e ritmo, mas pode-se dizer muito mais que isso. Música pode ser extremamente descritiva em todas as maneiras, todos os caminhos da vida. Concorda Paul?

D: Sim! E de tudo que já ouvi seu, isso é uma das coisas mais impressionantes a seu respeito, você sempre tem uma história a contar.

P: Esse é mais ou menos meu objetivo, é como pensei que deveria ser.

D: Outro ponto fundamental de sua música é essa técnica fantástica à qual ninguém realmente se equiparou. Sempre me perguntei a esse respeito, se sua técnica era fruto de estudo ou foi evoluindo gradativamente com a prática.


P:
Você torna tão difícil pra eu responder, porque sinceramente não vejo o que há de tão fantástico. Pus muitas horas de estudo no sax, é verdade. Tanto que certa vez os vizinhos ameaçaram pedir para minha mãe para que nos mudassemos. Ela disse que eu os estava enlouquecendo com o sax. Costumava estudar pelo menos de onze a quinze horas por dia.

D: Ahh! Isso que me perguntava.

P: Sim, eu fiz isso por uns 3 ou 4 anos.

D: Então essa é a resposta.

P: Pelo menos são os fatos.

D: Ouvi um disco seu recentemente que por algum motivo não havia ouvido na época do lançamento, e que em uma das faixas ouvi uma citação de dois compassos do Close Book, foi como um eco do passado. (Desmond cantarola o exercício.)

P: É. Ela (a técnica) foi toda feita com livros.

D: É confortante ouvir isso porque de alguma maneira achava que você havia nascido com tal técnica e que você nunca teve de se preocupar com isso, em continuar trabalhando nela.

M: Fico feliz que esse tema tenha sido trazido à discussão, pois há muitos músicos jovens que tendem a achar isso.

D: Sim é verdade. Já querem sair tocando...fazer uns showzinhos e viver a vida, mas não dedicam 11 horas por dia nos livros.

P: Definitivamente o estudo é absolutamente necessário, em todas as maneiras. Como qualquer talento que uma pessoa possa ter, como um bom par de sapatos quando se põe uma graxa e dá-se um brilho, o estudo é o polimento, isso acontece em qualquer lugar do mundo. Einstein era um gênio mas estudou. O estudo é uma das coisas mais maravilhosas.

M: Fico feliz de ouvir você dizer isso.

P: Pode apostar.

 

apoio cultural





Na segunda parte da entrevista, Parker conta como conheceu seu parceiro musical e amigo Dizzy Gillespie, Miles Davis e comenta seus projetos.

leia segunda parte da
entrevista

Confira as biografias

Paul Desmond


Charlie Parker

 

 

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