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entrevista
CHARLIE PARKER E PAUL DESMOND: admiração mútua

Parte II


Nesta entrevista dois dos maiores representantes do sax alto, os geniais, Charlie Parker e Paul Desmond, discutem suas concepções musicais, suas influências, a evolução do jazz, e deixam clara a admiração mútua.

Na segunda parte da entrevista, Parker conta como conheceu seu parceiro musical e amigo Dizzy Gillespie, Miles Davis e comenta seus projetos.

(Charlie Parker entrevistado pelo radialista John McLellan e o sax alto Paul Desmond na rádio pública (WHDH) de Boston em janeiro de 1954, quando Bird fazia uma temporada de duas semanas naquela cidade.)

D: Qual será o próximo disco?

P: Qual será?

M: (locutor aos ouvintes) Bom... Nós escolhemos Night and Day, um dos discos de Parker. Este é com uma banda ou com cordas, Bird?

P: Não, esse é com a banda ao vivo. Acho que tem uns dezenove músicos neste disco.

M: Então vamos ouvi-lo e depois comentamos...[McMellan toca Night and Day]

D: Bom Charlie isso nos leva a perguntar, quando você e Dizzy Gillespie uniram as forças? - o próximo disco que ouviremos - Quando conheceu Diz pela primeira vez?

P: Bom... A primeira vez, nosso encontro oficial por dizer assim, foi no palco do Savoy Ballrom em Nova Iorque em 1939. Quando a banda de McShann veio à Nova Iorque pela primeira vez. Já tinha estado lá, mas fui para o oeste onde me juntei a banda e voltei para Nova Iorque. Estávamos tocando no Savoy e uma noite Dizzy veio e sentou para tocar com a banda. Eu fiquei simplesmente maravilhado com o cara e nos tornamos bons amigos. E até hoje somos. E então essa foi a primeira vez que tive o prazer de conhecer Dizzy Gillepie.

D: Ela já estava tocando da mesma maneira, antes de tocar com você?

P: Não me lembro precisamente. Só sei que ele estava tocando, o que costumávamos chamar, no vernáculo de rua um Beaucoup de sopros, sabe?

D: Beaucoup?

P: Sim...Como se tocasse todos os sopros amontoados em um só.

D: Ahh!

P: E costumávamos ir a diversos lugares, participar de jams juntos, e nos divertíamos um bocado. Então, depois de sair em excursão pelo oeste com McShann e voltar à Nova Iorque, encontrei Dizzy novamente em 1941 na organização do velho Hines, entrei para a banda e passamos a trabalhar juntos, isso por mais ou menos um ano. A banda era Earl Hines, Dizzy, Sarah Vaughan, Billy Eckstine, Gail Brockman, Thomas Crump, Shadow Wilson...muitos dos nomes que hoje você reconheceria no meio musical estavam naquela banda.

D: Um time e tanto...

P: Então a banda se dissolveu no final de 41 e no ano seguinte Dizzy foi para Nova Iorque onde formou sua própria banda e tocava no Three Deuces. Juntei-me ao grupo e foi nessa época que gravamos esses discos que estamos prestes a ouvir.

D: É, acho que foi com essa formação que lhe ouvi pela primeira vez, no Billy Berg's.

P: Ahh, mas isso foi em 45, chegaremos lá.

D: Só estou ilustrando o quanto eu esta pra trás nisso tudo.

P: Pare com isso, modéstia vai te levar a lugar nenhum.

D: Eu sou cool.

M: Então... vamos rodar este LP de 42... Groovin' High?
P: Sim.
M: Ok! Com vocês Dizzy e Charlie.

Toca Groovin'High

M: Acho que é com Slam Stewart e Remo Palmieri e não me lembro quem toca o piano.
P: Acho que era o Clyde Hart.
M: Ahh... é mesmo.
P: É... e o falecido Big Sid Catlett.
D: Você ia dizendo que em 42 Nova Iorque estava fervendo...
P: Sim, estava, bom a aqueles eram o que ppoderiamos chamar os bons velhos tempos, sabe Paul, a alegria da juventude...
D: Nem me fale.
P: Sem um centavo e cheio de vida.
D: Olha o vovô Parker falando.
P: Sabe, não havia mais nada a fazer a não ser tocar, e nos divertíamos muito tentando tocar. Eu tocava em um porção de Jam Sessions - foram muitas madrugadas, bastante comida boa, um lugar limpo pra morar, mas basicamente uma dureza danada.

D: Mas isso também é bom... sem preocupações.

P: Definitivamente, isso teve seu momento.

D: Você gostaria que isso tivesse se prolongado indefinidamente em sua vida?

P: Bom, querendo ou não isso aconteceu, verdade Paul. Estou feliz porque finalmente a situação melhorou um pouco, frisando bem o pouco.

D: Sim!?

P: Eu curto um pouco essa vida sim, na verdade, o prazer maior é tocar com o tipo de gente que eu toquei. E também conheci músicos jovens que realmente me deram muita satisfação. E se me permite, entre eles você, Paul.

D: Oh! Obrigado.

P: Claro, me diverti um montão tocando com você, cara... Um prazer em um milhão... and Dave Brubeck e muitos outros caras. Isso lhe dá a sensação de que se está realmente fazendo algo, sendo parte de um processo.

D: Você pode ter toda a certeza disso, na minha opinião você fez mais pelo jazz nos últimos dez anos, para deixar uma marca definitiva, do que qualquer outro músico.

P: Bem... ainda não Paul, mas gostaria. Gostaria de estudar um pouco mais. Não estou nem perto de terminado e não me considero velho para aprender.

D: Não! E eu sei que há muitas pessoas nesse momento prestando atenção em você com grande interesse, imaginando com o que você vai surgir a seguir...nos próximos anos. E entre eles, na primeira fila, eu. Então, o que você tem em mente? O pretende para o futuro próximo?

P: Falando seriamente, vou tentar ver se consigo ir para a Europa estudar. Tive o prazer de conhecer em Nova Iorque um sujeito chamado Edgar Varese. É um compositor clássico francês, um cara muito simpático, e quer me ensinar. Na verdade ele quer escrever para mim, quer dizer isso é mais ou menos sério. E quando eu terminar de estudar com ele posso ir para a Academie Musicale em Paris. Meu maior interesse ainda é aprender a tocar música.

M: Você estudaria instrumento ou composição? Ou os dois?

P: Os dois. Jamais gostaria de perder a técnica.

D: E não deveria mesmo, isso seria uma catástrofe.
P: Não gostaria que isso acontecesse, não daria certo.

M: Bom nós estamos nos adiantando à seqüência dos discos, mas esta sendo fascinante. Gostaria de dizer alguma coisa a respeito de Miles Davis?

P: Sim, posso lhe contar como conheci Miles. Em 1944, Billy Eckstine formou sua própria banda - Dizzy fazia parte dela, Lucky Thompson, tinha também Art Blakey, Tommy Potter, muitos outros caras e por último e menos importante o que vos fala.

D: Modéstia vai te levar a lugar nenhum, Charlie. (risos)

P: Tive o prazer de conhecer Miles pela primeira vez em St. Louis, quando ele era ainda bem jovem e ainda freqüentava a escola. Mais tarde ele veio para Nova Iorque onde concluiu seus estudos na Julliard School. Naquela época estava formando um quinteto aqui e outro ali para me apresentar no Thee Deuces por umas sete ou oito semanas. E Dizzy havia saído da organização de Eckstine, que havia se dissolvido, para juntar sua própria formação. Tanta coisa estava acontecendo que é difícil descrever e tudo aconteceu em questão de meses. Assim fui para a Califórnia com Dizzy, depois da dissolução da minha primeira banda e voltei para Nova Iorque no começo de 47 decidido a montar uma banda minha e permanente e Miles havia estado na primeira formação que se apresentou no Three Deuces. Eu tive Miles, tive Max Roach, tive Tommy Potter and Al Haig na minha banda. Outra banda que tive incluía Stan Levey, tinha Curley Russell, e Miles Davis mais George Wallington. Mas creio que você tenha um disco aí com Tommy e Duke Jordan. Qual é? Acho que é "Perhaps", não é? Deve ter sido lançado em 46 ou 47. Estas faixas foram gravadas em Nova Iorque, Broadway 1440, e esse é o começo de minha carreira como bandleader.

M: Bom então vamos ouvir... "Perhaps".

 

apoio cultural



Na primeira parte da entrevista, o impacto do som novo de Parker, sua visão da música e a importância do estudo.

leia primeira parte da entrevista

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Paul Desmond


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