Tradição
e modernidade
no caldeirão sonoro de Fernando Moura
Com
o CD “Do Bom e do Melhor” (Rob Digital)
Fernando Moura – pianista, compositor, arranjador
e produtor – mostra o quanto a música
instrumental brasileira pode nos surpreender e arrebatar.
Tudo no disco é superlativo. O elenco constelar
salta ao primeiro olhar na ficha técnica.
Nomes como Paulo Moura, Marcos Suzano, Armandinho,
Henrique Cazes e Carlos Malta brilham nos arranjos
sofisticados em clássicos como “Aquarela
do Brasil” (Ary Barroso) e “Chovendo
na Roseira” (Tom Jobim). Começa com
Ary Barroso e termina com um petardo sonoro, “Lapa
Tonight”, do próprio Fernando e Jovi
Joviniano. É jazz brasileiro capaz de fazer
a alegria de nossa aldeia global eletrônica. “Jardim
das Delícias”, “King’s Cross” e “Saudades
de Bangu” também são faixas assinadas
por ele, músico muito requisitado por grandes
nomes da MPB, autor de inúmeras trilhas para
cinema e teatro. Tanto assim, que em 1992 lançou
o CD “Cinema Tocado”. Agora, com “Do
Bom e do Melhor”, a música de Fernando
Moura, tão constante nos palcos cariocas,
vai girar pelo país e pelo mundo.

Ejazz – Ao
ouvir seu CD “Do Bom e do
Melhor”, percebe-se de
imediato uma produção musical sofisticada. Como
foi o processo de trabalho para chegar a esse resultado?
Fernando
Moura – Em meus trabalhos-solo anteriores, “Passeio
Noturno” e “Cinema Tocado”, eu
compus as músicas, escrevi os arranjos, experimentava
a reação do público em shows
com meu sexteto e daí ensaiava para a gravação.
Lá, surpresas aconteciam, convidados registravam
suas participações e eu trabalhava
para manter a maior espontaneidade possível.
Explorei pouco a eletrônica e o estúdio
como ferramentas de criação nesses
discos porque trabalhei muito em publicidade, até meados
da década de 90, e queria evitar no meu trabalho
autoral aqueles timbres tão passageiros e
artificiais que a tecnologia musical de então
propiciava aos músicos. Para o CD “Do
Bom e do Melhor”, depois de passar por tantos
modismos musicais e técnicos, eu quis juntar
tudo: arranjos escritos no papel de música
e as programações, os quartetos de
cordas com sons processados e o ganzá tocado
ao vivo, sem loopings de CDs americanos ou ingleses.
Os sintetizadores e samplers produzindo texturas
que, misturadas ao naipe de sopros, resultassem em
sonoridades únicas. O piano acústico
dialogando com o pandeiro processado do Suzano em
levadas que também pudessem incluir compassos
compostos. A música como invenção,
usando os meios mais adequados a cada momento, sem
preconceitos. A vitalidade de grandes solistas como
Paulo Moura, Armandinho e Roberto Marques, viajando
por harmonias sofisticadas e embaladas por um ritmo
indiscutivelmente brasileiro. A duração
das notas, a acentuação e as levadas
criando um balanço não só pela
repetição. O “ombro” contra
o “gesso”.
Enfim, foi um processo de produção
musical muito variado: da extrema sofisticação à espontaneidade
total. Cada faixa determinou a escolha dos caminhos.
Ejazz – Você estudou
trilha de filme na Escócia. O que esse
período de estudos e pesquisa acrescentou
na sua carreira?
Fernando
Moura – Em 1995, depois de todos aqueles
exageros da década de 80, e do período “Unplugged” do
início dos anos 90, quando o chique era ter
o maior número possível de músicos
tocando em violões o mesmo acorde de ré maior,
comecei a perceber que a música caminharia
sem volta para uma integração entre
o acústico, a performance e os recursos poderosos
que a informática começava a oferecer
aos músicos. Queria me qualificar de verdade
nesse lado tecnológico da música, que
só conhecia “de ouvido”, e ao
mesmo tempo expandir meus horizontes como arranjador
e orquestrador.
Sempre gostei muito de cinema e sempre trabalhei
com muito prazer em fazer músicas para imagens.
Como um ótimo caminho para composição,
me envolvi desde cedo na criação de
trilhas sonoras para teatro, vídeo e publicidade,
e queria me aprofundar nessa área, mas não
necessariamente no padrão hollywoodiano da
coisa. Por indicação do George Martin,
com quem trabalhei aqui em 1993 no Projeto Aquarius,
fui para Edimburgo, onde um grupo de professores
que incluía ao mesmo tempo gente que tinha
trabalhado no desenvolvimento do Pro Tools e compositores
de música para cinema e TV da Grã-Bretanha,
estava começando um curso de música
para cinema, TV e multimídia com um programa
que era exatamente o que eu estava procurando: história
da música para cinema, composição
para imagens, prática de orquestração
com direito a usar os alunos dos cursos de graduação
em música da escola, gravação
e edição digital, programação
midi e criação de sons em sintetizadores
e samplers. A escola oferecia ainda a possibilidade
de fazer música para os filmes dos alunos
do curso de cinema, que faziam parte de um programa
com o Channel Four, que os exibia regularmente para
toda a Europa.
Chegando lá, além de ter tido contato
com tudo isso durante um ano e meio, ainda tive o
privilégio de presenciar os primeiros passos
de estilos musicais que hoje estão na ordem
do dia, como drum and bass, house, trip hop e até mesmo
a dance music.
Foi uma experiência muito enriquecedora e algumas
faixas do CD “Do Bom e do Melhor”, como “King’s
Cross” e o arranjo de “Aquarela do Brasil”,
na verdade começaram a ser pensadas nesse
período que passei na Grã-Bretanha.
Ejazz – Essa é uma
pergunta inevitável,
uma vez que mexe com
nossa eterna curiosidade em torno dos Beatles.
Como foi
trabalhar com o “quinto” deles, Sir
George Martin?
Fernando
Moura – Foi
inesquecível sob
vários aspectos. Ele trouxe arranjos originais
das gravações dos Beatles e outros
que ele havia escrito depois. Tocar a “Papperland
Suíte” do “Submarino Amarelo” com
a Orquestra Sinfônica Brasileira e o “homem” ali
na frente regendo foi uma experiência muito
marcante, assim como tocar a introdução
de “Golden Slumbers” exatamente do
mesmo jeito que o Paul Mc Cartney gravou e sentir
a entrada
das cordas repetindo os motivos melódicos
do piano... Você passa a entender a música
de uma maneira totalmente diferente: a orquestra é um
gigantesco instrumento capaz das mais incríveis
nuances sonoras na cabeça e na escrita
de um grande arranjador como o George Martin. Às
vezes eu achava que estava sonhando, tocando
as partes que ele havia criado para gravações
que são históricas para a música
popular de várias gerações,
mas tinha que me ligar logo, pois como ele evidentemente
sabia nota por nota das partes de piano e teclados
do repertório, a responsabilidade era
muito grande.
Foi um desafio e uma fonte de inspiração
muito importante para a minha carreira como músico
e arranjador.
Ejazz – Como
surgiu a colaboração
com o cantor japonês
Miyazawa Kazufumi, que participa de seu disco
cantando “Chovendo na Roseira”?
Fernando
Moura – Em
1998 o Marcos Suzano me chamou para fazer com ele
os arranjos de um CD desse
artista japonês, para quem ele iria produzir
algumas faixas, e cuja proposta era fazer músicas
em parceria com artistas brasileiros. Entre os
escolhidos estavam o Carlinhos Brown, Lenine,
Pedro Luís
e o Paulinho Moska, que fariam letras e melodias
em bases que o Miyazawa havia composto e mandado
sob forma de demo. Ouvi as demos e fiquei muito
impressionado com a variedade e qualidade das
composições.
Tinha músicas com compassos compostos
ao lado de grooves em um acorde só, melodias
modais ao estilo japonês misturadas a canções
de harmonia influenciada pelo jazz, mas tudo
dentro de uma característica muito pessoal
e muito bem cantado. Trabalhamos inicialmente
em quatro arranjos,
mandamos para o Japão e a aprovação
foi imediata. Ele veio para o Brasil, gravamos
o CD “Afrosick”, que foi um grande
sucesso no Japão, fizemos uma longa excursão
de lançamento do CD por lá e nossa
amizade se solidificou através da música
que mais uma vez mostrou seu papel de linguagem
universal. Gosto muito do estilo do Miyazawa
cantar e a turma
de lá gosta muito do Jobim, por isso convidei-o
para essa participação em “Chovendo
na Roseira”, que dá um clima totalmente
especial à única faixa cantada
de “Do
Bom e do Melhor”.
Ejazz – Como
foi a experiência de tocar
no Japão, país onde a
música brasileira é bastante apreciada?
Fernando
Moura – Tocar
com bons músicos
numa produção caprichada é sempre
uma experiência muito boa. Foi muito importante
para vencer preconceitos também. Da mesma
maneira que o brasileiro não é necessariamente
um Zé Carioca batuqueiro, o japonês
também não é maquinal e quadrado
como os estereótipos nos levam a pensar.
Conhecer o Japão bem como os músicos
japoneses também foi muito bacana. Não é só o
Brasil que é um “país de contrastes”.
Lá também prédios moderníssimos
de grandes corporações estão
ao lado de templos milenares, japonesas em trajes
típicos dançam rock and roll aos
domingos em uma praça de Harajuko. Japoneses
de cabelos rastafári se misturam a executivos
de ternos caríssimos em rodízios
de sushis gigantescos. Há mercado e ouvidos
para toda e qualquer música de qualidade.
Eles são muito
mais abertos que os americanos, que têm dificuldades
terríveis com tudo que não é cantado
em inglês, e do que os europeus, que têm
uma tendência a colocar a música brasileira
no folder do “exótico”. Os japoneses
têm uma curiosidade e um respeito muito grandes
pela nossa música e, além da bossa
nova, que é a vertente mais popular, o mercado é imenso
e extremamente generoso para os brasileiros.
Ejazz – Antes
desse novo trabalho, você lançou
recentemente o
CD “Eletro Pixinguinha XXI” com Henrique
e Beto Cazes em que
vocês eletrificam o chorinho. Como foi essa
combinação de um
gênero tão tradicional com a música
eletrônica?
Fernando
Moura – A grande dificuldade desse
trabalho foi não descaracterizar as composições
do Pixinguinha que, por sua natureza sofisticada,
apresentam uma série de desafios rítmicos
e melódicos para uma releitura eletrônica.
A solução foi partir dos arranjos originais,
orquestrando-os com timbres eletrônicos de
características semelhantes aos acústicos,
mas sem imitá-los. Se o original era um trompete,
eu criava um som com um timbre metálico e
um ataque semelhante ao de um instrumento de sopro.
Na parte rítmica, loopings de dance e outros
gêneros eletrônicos foram cuidadosamente
editados para formarem grooves com as percussões
tocadas pelo Beto Cazes, que mesmo processadas com
diferentes plug ins, mantinham o acento brasileiro.
Além disso tudo, as melodias principais foram
tocadas pelo Henrique no cavaquinho e eu toquei as
partes de piano pessoalmente, com solos e tudo o
mais, sem correções artificiais e
engessadoras.
Ejazz – Que
gênero de música
mais lhe influenciou? Que
músicos foram essenciais para a sua formação?
Fernando
Moura – Minha formação é de
música erudita, então a primeira vez
que vi o Keith Emerson tocando uma adaptação
da Abertura 1812 de Tchaikovsky, atirando facas no órgão
Hammond, pensei que ali poderia ser um caminho, afinal
era a primeira vez em que o tecladista era o principal
do grupo.
Fui fã de rock progressivo do Yes, Pink Floyd
e Genesis e fiquei muito feliz em ter participado
do CD “Till we have faces” que o Steve
Hackett gravou aqui no Brasil em 1984. Comecei a
me ligar em outras personalidades do rock como Jerry
Lee Lewis, Leon Russel e Nicky Hopkins. Já saído
do Conservatório e iniciando aulas de composição
com o Koellreuter e Guilherme Vaz, veio o jazz com
Mc Coy Tiner, cuja maneira de armar os acordes na
mão esquerda, em intervalos de quartas, uso
até hoje. A sensibilidade do Bill Evans e
a energia do Chick Corea também sempre foram
uma grande fonte de inspiração. Na
música brasileira sou fã do Luiz Eça,
pela combinação da formação
erudita e técnica jazzística sempre
com resultados inesperados, do Egberto Gismonti e
do Hermeto Pascoal, a quem dedico em meu CD a faixa “Saudades
de Bangu”. O estilo melódico do Tom
Jobim e o balanço do César Camargo
Mariano. Entre os arranjadores, procuro sempre ouvir
Claus Ogermann, Jeremy Lubbock, Claire Fischer e
Eumir Deodato, pelo bom gosto e inventividade.
Ejazz – Você compõe
constantemente trilhas também para
teatro. Como é sua relação
com essa linguagem e que trabalhos
você tem realizado nessa área?
Fernando
Moura – O meu primeiro trabalho profissional
foi tocar numa peça de teatro infantil dirigida
pela Marília Pêra e com direção
musical do Francis Hime, que me ensinou a tocar gêneros
musicais como bolero, maxixe, tango e outros, uma
vez que, vindo da música erudita, eu não
tinha a menor idéia do que fazer com as mãos,
se não fosse através da leitura de
uma partitura. No teatro, se a peça não é um
musical, é preciso muita criatividade e muito
apoio do diretor para não cair nos clichês
da música ilustrativa ou da sonorização
de novelas. É possível criar climas,
situar o espectador na época ou local da trama
de uma maneira sutil e que ajuda a contar a história.
Em “A Dona da História”, dirigida
pelo João Falcão, “Mais Uma Vez
Amor” e “Alice”, dirigidas pelo
Ernesto Piccolo e “No Meio do Nada”,
que faço tocando piano e teclados ao vivo
com o Ricardo Blat, trabalho com essas idéias.
Ejazz – Com
toda a sua experiência
no mercado musical, como
você analisa a transformação
que está ocorrendo (tanto na
produção quanto nos meios de distribuição)
e quais são os
pontos mais importantes de todo esse processo?
Fernando
Moura – A
associação
da música com a tecnologia chegou para
ficar, mas não substitui o talento. Os
meios de produção
digital democratizaram bastante o processo e
ninguém
precisa ir obrigatoriamente a um estúdio
de equipamentos de milhões de dólares
para gravar um trabalho de qualidade. Trabalhando
sem a pressão do aluguel da hora de estúdio,
você pode conseguir um clima mais produtivo
que, aliado às facilidades de edição
em computador, abre muitas possibilidades. Há um
outro lado disso que é o fato de muita
gente estar usando as mesmas ferramentas e achar
que pode
resolver falta de criatividade com “tecno-truques”.
Pode acabar se frustrando ao ouvir um looping
que parecia genial no seu trabalho, num comercial
de
varejão. Tem que ir além dos presets!
No lado da distribuição, a coisa é mais
complexa. A Internet é uma boa vitrine, mas
não substitui totalmente o contato físico
que qualquer comprador gosta de ter com o CD numa
loja antes de se decidir por uma compra. Há gravadoras
multinacionais que fazem contratos de royalties com
artistas e produtores em cima de um preço
de venda de aproximadamente dez reais, mas o CD na
loja do shopping custa quase trinta e na mão
do camelô vale três reais. Já que
as novas tecnologias permitem uma otimização
de custos de produção, tem que haver
um ajuste para desencorajar a pirataria, remunerar
o artista corretamente e dar lucro para a gravadora,
que investe no artista e não é uma
instituição de caridade.
Ejazz – Você vem
produzindo trabalhos de Armandinho, Marcos
Suzano e Paulo Moura, que também participaram
do seu CD.
Gostaria que você nos contasse sobre essa
experiência
de
compartilhar conhecimento e talento com eles.
Fernando
Moura – Acho que o produtor musical,
numa gravação, deve criar as condições
adequadas para que o artista possa dar o melhor de
si e ficar satisfeito com o que vai para o público
com o seu nome. Ter a percepção de
qual performance vai ser “a boa” é fundamental
e não se aprende na escola. No caso de músicos
de alto gabarito, isso é muito sutil, pois
geralmente desde o primeiro take, o nível
já é muito bom e o produtor deve trabalhar
para aproveitar ao máximo a musicalidade do
artista, mas sem perder a objetividade. Nada deve
interromper o fluxo das idéias e quanto mais
você deixar um músico desses à vontade,
melhor para o trabalho. É uma relação
de confiança, em que a amizade e musicalidade
têm que se misturar com muita harmonia.
Ejazz – O
seu trabalho com cantores (Marisa Monte, Simone,
Nelson Gonçalves, Chuck Berry, entre muitos
outros) tambémé intenso.
Que momentos foram mais interessantes quando você acompanhou
esses artistas?
Fernando
Moura – A
relação entre
o cantor e o músico tem que ser de muita
confiança
e generosidade, pois ali, em cima do palco, um
depende totalmente do outro. Não importa
qual o saldo bancário de cada um. No meu
caso, sendo pianista, a harmonia está toda
ali nas minhas mãos
e uma hesitação pode perturbar
completamente a performance do cantor. Por outro
lado, se o cantor
fizer algum movimento inesperado, pular uma parte
da música, entrar um pouco antes ou um
pouco depois do combinado, você que está ali
para lhe dar suporte tem que se adaptar rapidamente,
antes que o público perceba se houve ou
não
alguma coisa.
O mais difícil sempre é acomodar sua
maneira de tocar às necessidades de cada trabalho,
mantendo algum grau de personalidade. Quando fui
convidado para fazer parte da banda que iria acompanhar
o Chuck Berry no Free Jazz de 1993, fui avisado de
que ele não ensaiaria nem daria a relação
das músicas a serem tocadas, pois só decidiria
isso no decorrer do show. Chegado o dia da primeira
apresentação, foi marcada uma “audition” às
15 horas para nos conhecermos e fazermos o show à noite.
Eu tinha assistido “Let the good times roll” mais
de dez vezes, sabia muitos truques do Jimmy Johnson
que foi o pianista que gravou a maior parte dos clássicos
do rock and roll com ele e tratei de mostrar isso
generosamente no ensaio. Depois de umas quatro músicas,
o Chuck Berry sentou-se no banco do piano comigo,
passou o braço pelo meu ombro e falou com
aqueles dedos enormes: “você toca muito
bem, mas rock and roll é uma coisa muito mais
simples” e dedilhou dois ou três riffs
clássicos no piano para mim arrematando: “Basta
isso, certo?...”.
Com o Nelson Gonçalves também houve
uma situação semelhante. Fui chamado
para fazer uma substituição às
pressas e não houve tempo para ensaio com
o Nelson, só com a banda. Passei no “teste
do aeroporto”, que consistia em ele chegar
sorrateiramente por trás do novo músico
e encostar a sua famosa prótese para testar
a reação do cara que tinha que pular
espantado ou demonstrar algum incômodo, caso
contrário, já rolava uma desconfiança.
Chegamos ao lugar do show, o Nelson estava cansado,
sem paciência para fazer um ensaio geral e
pediu para que eu escolhesse uma música para
passar com ele e nada mais. Escolhi uma da parte
de piano e voz do show. Ao terminarmos ele se deu
por satisfeito e disse para mim com aquela voz grave
e impostada: “Meu filho, já está tudo
certo e há muito tempo: você faz o seu
negócio aí, eu faço o meu aqui
e a amizade continua”.
(por
Mona Gadelha, correspondente ejazz)