Ejazz – o site do jazz e da música instrumental brasileira
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entrevista: LEO GANDELMAN

SAX SEM FRONTEIRAS

(por Mona Gadelha, correspondente ejazz)

A carreira peculiar de Leo Gandelman pode ser analisada como um fenômeno no mercado brasileiro de música instrumental, um segmento em que o volume de vendas não é diretamente proporcional ao talento dos músicos. Não no caso de Gandelman, saxofonista, compositor, arranjador e produtor. Com doze discos lançados, ele já vendeu mais de 400 mil cópias. "Solar", seu terceiro álbum, produzido em 1990, alcançou a marca dos 70 mil, quase um disco de ouro, que Gandelman já conquistou como produtor do disco "Virgem", de Marina Lima.

Sua música, com uma bem dosada influência de jazz e de MPB, chega a freqüentar as prateleiras dedicadas ao pop. Isso se deve a personalidade curiosa de Leo Gandelman, um músico aberto às novas tendências musicais, sem medo de atravessar fronteiras. Filho de um maestro e uma pianista clássica, de carreira precoce, aos 15 anos, ele já despontava como flautista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Hoje, ele só tem motivos para comemorar e rever os 16 anos de carreira, marcados por inúmeras participações em festivais internacionais, prêmios (ele foi 15 vezes eleito "Melhor Instrumentista" pelo "Diretas na Música",do Jornal do Brasil, de 1986 a 1999).

Antes do lançamento do novo CD e do primeiro DVD de música instrumental brasileira, "Leo Gandelman Ao Vivo" (EMI), na Sala São Paulo, nos dias 1,2 e 3 de maio, com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Gandelman conversou com o ejazz sobre esse novo trabalho e sua volta ao Brasil depois de alguns anos morando nos Estados Unidos. No repertório do DVD faixas como "A Rã" (João Donato/Caetano Veloso), Maracatu Atômico (Nelson Jacobina/Jorge Mautner), "Na Baixa do Sapateiro" (Ary Barroso), "As Rosas Não Falam" (Cartola), "Solar" e "Castelo de Areia", composições assinadas por ele.


Ejazz: Você viveu estes últimos anos nos Estados Unidos e, de volta ao Brasil, lança seu primeiro CD ao vivo e o DVD. Como foi a produção desse trabalho - da escolha do repertório à formação da banda? O que o diferencia do processo de gravação em estúdio?

Leo Gandelman: Este é o meu primeiro trabalho ao vivo e estou muito feliz com o resultado.Foi um momento especial. As coisas aconteceram de forma espontânea. Eu e todos os músicos tivemos a oportunidade de viver a magia da música com intensidade. Foi realmente muito bom para nós. O repertório é uma síntese do que mais marcou minha carreira nessa trajetória de 16 anos. A banda é composta pelos músicos que vêm me acompanhando nos últimos anos, todos muito especiais para mim: Bruno Cardozo (teclados), Alberto Continentino (baixo), Juliano Zanoni (bateria), Bernardo Bosisio (guitarra) e Jakaré (percussão).

Ejazz: Para o lançamento em São Paulo você se apresenta com a OSESP. E esta não é a primeira vez que sobe ao palco com uma orquestra. Como ocorreu essa aproximação com as formações sinfônicas? Está relacionada aos seus estudos de música clássica?

Leo Gandelman: Estudei na escola clássica desde as primeiras notas até chegar a ser solista da Orquestra Sinfônica Brasileira por ocasião dos "Concertos para a Juventude", quando tinha 15 anos. Mais tarde, comecei a estudar jazz, aos 19 anos). Comecei a tocar saxofone e fui estudar na Berklee College of Music em 1977, onde fiquei até 79 estudando também harmonia, arranjo e composição. Recentemente toquei com as sinfônicas de Salvador, Brasília e com a Orquestra Sinfônica Brasileira no Central Park e Lincoln Center (Avery Fisher Hall), em Nova York. Com a OSESP, nos dias 1 e 3 de maio, o repertório é a "Fantasia para Sax Soprano e Orquestra", de Heitor Villa-Lobos, e o "Concertino para Sax Alto e Orquestra", de Radamés Gnattali. É um grande desafio para mim. Mas no dia 2 de maio estarei na Sala São Paulo acompanhado de um trio (Bruno no piano, Juliano na bateria e André Vasconcellos no baixo) fazendo o show de lançamento do DVD. É uma excelente oportunidade especial de realizar este show, que temos feito pelo Brasil afora, em condições únicas que só a Sala São Paulo oferece.

Ejazz: Dessa recente experiência nos Estados Unidos, o que você traz na bagagem?

Leo Gandelman: Muita troca de informação, oportunidade de tocar para novos públicos e, é claro, alguns anos de janela - observação e experiência!

Ejazz: O que mais lhe impressionou nas temporadas do Blue Note, em Nova York? A música brasileira, que sempre teve prestígio lá fora, está ainda mais em alta agora?

Leo Gandelman: O Blue Note, sem dúvida, é um lugar que marca a carreira de um artista. É uma casa de jazz que atrai público do mundo todo. Mas a expectativa dos americanos e estrangeiros em geral com relação à música brasileira continua sendo ainda a bossa nova. Foi o período que mais marcou a nossa exportação musical, ficando como referência até hoje. É muito difícil para quem não conhece o Brasil ter uma noção do que se passa musicalmente aqui dentro hoje!

Ejazz: Botafoguense que acaba de compor a trilha do filme "Estrela Solitária", baseado na vida do genial jogador garrincha, que referências você utilizou na realização deste trabalho? Será lançado em CD?

Leo Gandelman: A minha referência foi o samba jazz e a música de gafieira do final da década de 50 até a década de 70. Tive boas conversas com o Rui Castro (autor do livro) e também um craque na música. Ele me deu várias dicas para a criação. Tenho agora uma produtora e estúdio em Ipanema, a ZAGA Estúdios, e esta trilha marca minha volta ao mercado. Nesse estúdio, em sociedade com o Juliano Zanoni, temos a intenção de trabalhar musicando imagens e, além de "Estrela Solitária", fizemos também diversas trilhas para a TV. Entre eles, a do " Globo Ecologia " . Trabalhei cerca de cinco anos também como fotógrafo, e fazer trilhas sonoras, musicar imagens, é uma oportunidade de unir o aprendizado que tive no cinema com a fotografia e a minha experiência musical. Aliás no DVD tem um sub-menu que é uma exposição de fotos que fiz no meu tempo de fotógrafo profissional!

Ejazz: Seus discos vendem muito mais do que usualmente se espera da performance da música instrumental nas prateleiras. A que você atribui esse fato?

Leo Gandelman: Muita dedicação a um ideal e a busca de comunicação genuína com o público.

Ejazz: O mercado fonográfico passa por uma grande transição, tanto do ponto de vista dos meios de produção quanto de distribuição. Que análise você faz desse momento da indústria? O que está mudando?

Leo Gandelman: A música faz parte da história e o momento que vivemos é de rápidas mudanças no mundo da tecnologia, o que colocou em dúvida o suporte que vai carregar a música, ou seja, a indústria. Enquanto isso não ficar claramente definido, o mercado vai experimentar mudanças e incertezas, quando, sem dúvida, o mais afetado é o artista. Temos que ser criativos e prestar muita atenção nas opções que começam a se apresentar.

Ejazz: Você participou do novo trabalho do Bossa Cuca Nova (dos músicos Alexandre Moreira, Márcio Menescal e DJ Marcelinho da Lua), projeto de bossa com música eletrônica. Como foi essa experiência? Você pretende utilizar essas referências no seu trabalho?

Leo Gandelman: Gosto muito dos rapazes do BCN . Sou fã do trabalho deles e foi uma boa troca que rolou entre nós.

Ejazz: Com a volta ao Brasil, quais são os planos para o Masters of Groove, grupo em que você atuou junto com os músicos americanos Bernard Purdie, Grant Green e Rueben Wilson?

Leo Gandelman: Sempre que possível estaremos juntos. Em fevereiro, quando estive em Nova York tocando no Sweet Brasil, tive a oportunidade de participar da gravação do novo CD deles!

Ejazz: Recentemente você apresentou no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio o show "Leo Gandelman interpreta John Coltrane". Coltrane lhe influenciou? Que outros músicos você ouve e admira?

Leo Gandelman: Com certeza Coltrane é o pai de todos os saxofonistas de hoje. Aprendi e me influenciei bastante com o seu trabalho. Admiro hoje muito também o Kenny Garret, Joshua Redman e um grupo de saxofonistas novos que temos aqui no Brasil, como o Teco Cardoso, Marcelo Martins, Carlos Malta, Canuto, Proveta e outros.

Ejazz: Você voltará também a atuar na produção musical no Brasil? Há projetos em andamento?

Leo Gandelman: Com certeza. Tem vários projetos em andamento e agora com o estúdio tudo fica mais fácil !

Ejazz: E quanto à carreira de fotógrafo profissional, dá para dividir com a música?

Leo Gandelman: De forma alguma. A energia tem que ser canalizada. Ou ela vai para um lado ou para outro. Fazer as duas coisas ao mesmo tempo seria uma "overdose" ! Fotografar agora só como amador, que aliás, é a melhor coisa !

 
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