UM “BRASILÊRU” CHAMADO LUIZ BRASIL

Os arranjos e as cordas do violão de Luiz Brasil já freqüentaram os mais nobres palcos e estúdios (de Caetano Veloso a Cássia Eller e Jussara Silveira). Com Caetano tocou por dez anos. Com Cássia dividiu o seu período mais glorioso. E com Jussara, amizade de uma vida inteira, tão próximos que também se apresentam em duo num projeto que leva o nome de “Nobreza”. Depois de uma longa trajetória, vindo de uma grande família musical, Luiz Brasil lança seu primeiro e aguardado CD com o apropriado título de “Brasilêru” (distribuição Tratore). O disco, gravado nos EUA, Europa e no Brasil, tem raízes no baião, maracatu, chorinho e no samba. Conta com a participação de 26 músicos. Entre eles, Ryuichi Sakamoto.
Ejazz:
O violão no Brasil é um verdadeiro símbolo da nossa cultura. Temos grandes violonistas na história da música brasileira. Como foi que o violão lhe conquistou? Quando entrou na sua vida?
Resposta:
Eu sempre fui apaixonado pelos instrumentos musicais e seus sons maravilhosos. Sempre foi assim desde muito cedo. Meu primeiro instrumento foi uma gaita de boca (harmônica), que ganhei de presente da minha bisavó, quem depois de 2 anos me deu uma sanfona de quatro baixos, que tenho até hoje. Mas o violão mesmo entrou em minha vida lá pelos sete anos de idade, quando aprendi os primeiros acordes com minha mãe, que tocava piano e violão.
Ejazz
O que lhe motivou a lançar o CD? E como começou a produção e a criação dos arranjos?
Resposta:
Há muito tempo venho sendo cobrado pela família e pelos amigos por um trabalho assinado por mim. Isso nunca me moveu a começar alguma coisa nesse sentido. Até que em 2002 aconteceram coisas que interromperam meus trabalhos de maneira brutal, fazendo com que eu me retirasse um pouco de cena e refletisse sobre o meu próprio destino. Desse momento em diante confesso que minha vida mudou, ou pelo menos, o meu olhar ante tudo ao meu redor. Comecei a experimentar uma solidão muito sadia, que me levou ao encontro de mim mesmo e das minhas coisas. Nessa época eu já tinha equipamento suficiente pra gravar o que quisesse na minha casa. Então, comecei a montar ingênua e despretensiosamente o que veio a ser o meu primeiro CD solo. Nunca tive essa pretensão, mas quando eu comecei a ouvir as gravações percebi que tinha quase pronto esse CD. Daí pra frente com o tesão que rolou de ver acabado, todo o meu tempo foi direcionado a gravar o que faltava.
Pronto, depois de tudo gravado, mixado e masterizado foi só mandar o filho pra fábrica e esperar ele chegar. Os arranjos nasceram da mesma forma. Apenas para “Querubim” eu sentei pra escrever os metais, para as outras músicas os arranjos foram acontecendo.
Ejazz
Você já dirigiu muitos projetos musicais de grandes artistas.Gostaria que falasse desta experiência e que momentos mais lhe marcaram nessa atividade de diretor?
Resposta:
Dirigir projetos de outros artistas acabou sendo a coisa que mais fiz até agora. Eu reconheço ter certo talento para levar o trabalho de cada artista para a direção de sua própria personalidade. Talvez isso seja a coisa mais importante, a meu ver, que um diretor possa fazer, e assim tirar o melhor de cada um.
Confesso que é difícil citar um ou dois trabalhos destacando eles dos outros. O que acontece é que meu envolvimento é tanto. Eu vivo a coisa com tamanha intensidade naquele período, que as emoções são parecidas no geral. Claro que alguns fatos acabam se destacando, mas não quer dizer por isso, que foi mais importante que o outro.
Foi muito divertido o laboratório e ensaios de “O sorriso do Gato de Alice”, não somente pelo convívio com Gal e com o Gerald Thomas, como a emoção de estar pela primeira vez diante de um grande ídolo meu que é o Chico Buarque.
O “Circuladô” foi na verdade um grande momento, ver como o Caetano deixa livre a criatividade dos músicos e sabe dali tirar tudo o que ele pretende. Eu aprendi muito estando dez anos ao lado dele fazendo parte de sua banda, fazendo arranjos e dirigindo um tanto de músicos excelentes em estúdio e no palco. Tive grandes oportunidades trabalhando com ele.
Tive a oportunidade e confiança de dirigir a Cássia Eller nos seus dois últimos trabalhos em “Com você meu mundo ficaria completo”, fazendo a produção e os arranjos desse CD, que mudou a direção da carreira dela, ou melhor, mudou a visão do público a seu respeito. Quando mostramos nesse CD tudo o que ela era capaz de fazer, e não somente rock, como a maioria pensava.
Passar três semanas com a Cássia e toda a banda e os músicos que iriam participar do Acústico MTV, num sítio maravilhoso só cuidando da direção e dos arranjos desse trabalho, foi inesquecível !
Ejazz:
Você já está mostrando o show com base no CD. Como está a montagem do show? Que músicos lhe acompanham?
Resposta:
Não foi difícil montar esse show. Na verdade, ele já está montado desde janeiro de 2005, quando fiz nossa estréia em Salvador, no Festival de Música Instrumental da Bahia. Por sinal, a banda que eu montei lá foi muito especial, mas fica difícil a movimentação com uma banda de nove músicos no palco, sendo todos de Salvador. Para o Rio de Janeiro e São Paulo montei uma banda aqui, que me dará a oportunidade de tocar com parte da galera que gravou meu CD, e com isso terei uma mobilidade maior para uma banda tão grande.
Aqui no Rio estreamos na Modern Sound em Agosto com Marco Lobo e Orlando Costa na percussão; Gastão Villeroy no baixo; Paulo Calasans no piano; Aldivas no Trombone; Marcelo Martins no sax tenor, soprano e flauta; Jessé Sadock no Fluguelhorn; João Viana na bateria e eu de violão e guitarra. Uma coisa é importante que seja dita. Eles não me acompanham. Juntos, iremos interpretar o repertório do CD “Brasilêru”.
Ejazz:
Como você vê o panorama da música instrumental brasileira hoje? Acha que há espaço para apresentações e divulgação de uma vasta produção de trabalhos lançados anualmente?
Resposta:
Acho em primeiro lugar que independente das condições em que a música brasileira instrumental se move, ela está aí, e me arrisco a dizer que temos um manancial dos mais importantes do mundo. Acho que isso não é novidade. Quanto ao espaço disponível, na crise em que estamos, não somente na música do Brasil, de certa forma diminuiu a distância entre os diversos tipos de música que temos. Pensando assim quero dizer que a música instrumental tem algum espaço sim, embora não seja lá o que gostaríamos que tivesse, porém um pouco mais ampliado que antes.
Ejazz:
Você chegou a ter uma banda de rock, não é? Como foi essa trajetória até chegar a ser um dos violonistas mais requisitados da MPB?
Resposta:
Eu adoro rock e bandas, nada mudou nesse ponto hehehe. Eu adoro guitarras e pedais, não sei como explicar, mas acho que talvez eu saiba me expressar melhor no violão. Ou talvez tenha coincidido de eu e meio mundo tender a uma opção mais natural e acústica, depois da invasão dos sintetizadores há uns anos atrás. Essa mudança de preferência de sonoridade é cíclica, eu acho.
Ejazz:
Como anda sua atividade de produtor de discos?
Resposta:
Vai muito bem. Aliás, tenho trabalhado mais que sempre, mas acho que isso está acontecendo com todos nós. É inegável que o mercado está num momento de grandes transições, e bem confuso, mas não é por isso que a produção musical brasileira está menor.
Ejazz:
Você pertence a uma família musical. Quem é essa turma? Vocês trabalham juntos?
Resposta:
Somos muitos sim, dos irmãos, Jorge Brasil (baterista), Marcelo Brasil (baterista), Mou Brasil (guitarrista). Dos sobrinhos, Cássio Brasil (baterista), Victor Brasil (baterista), Rafael Brasil 16 (futuro baterista), Marcio Brasil (baterista e percussionista). Dos filhos, Tamima Brasil (percussionista e baterista), e Aratan Brasil (baterista). A maioria toca mais de um instrumento e alguns mais de dois. Engraçado é verificar que quase não fazemos nada juntos, mas vez por outra acontece que dois ou no máximo três nos encontramos no mesmo trabalho. Por exemplo, na turnê do CD “Fina Estampa vivo” com o Caetano, meu irmão Marcelo Brasil acabou substituindo o baterista que estava conosco e fazendo a turnê européia, indo junto conosco até o Japão. Às vezes acontece...
Ejazz:
Há planos para mais discos? Um novo CD seguirá a mesma linha deste primeiro? Ou você pensa em incursionar por outras paisagens sonoras?
Resposta:
Há planos para mais discos sim, agora que eu descobri o gostinho, não vou querer mais parar. Mas essa questão de linha é que eu não sei como tratar. Não sei que cara vai ter o próximo, mas certamente outras paisagens virão, não sei quando, e serão igualmente bem vindas.
Ejazz:
De todas estas atividades – dirigir, produzir, tocar – qual delas lhe dá mais prazer?
Resposta:
Todas essas atividades, incluindo outras, tais como, arranjar e compor, são parte de minha vida inteira. Compor, arranjar, tocar, produzir, gravar e por fim dirigir. Isso não soa como: acordar, comer, trabalhar, voltar, namorar, passear e descansar? Pra mim é a rotina de sempre, e o melhor disso é quando você faz a rotina que você ama em sua vida. Quer coisa melhor? Agora, a mais mágica de todas elas é tocar...
(por Mona Gadelha, correspondente ejazz)