ejazz:
Eu gostaria que você fizesse um breve histórico
da sua trajetória musical.
Rubens
de la Corte: Eu comecei a estudar música
aos nove anos de idade. Primeiro com violão clássico
e aos doze anos também com a guitarra. Sempre
estudei e ainda estudo as pecas e a técnica erudita,
mas tomei como caminho a veia popular da música
brasileira, o jazz e o pop.
Desde o
início eu contei com grande apoio familiar. Meus
pais sempre me incentivaram para estudar música
seriamente e curtiam bastante ao me ver tocando. Tenho
dois irmãos que são músicos também.
O mais velho é contrabaixista erudito e mora
hoje em Barcelona. Ele tocou na Ópera de Frankfurt
um tempo e em várias orquestras da Alemanha durante
mais de dez anos, e hoje está na Ópera
de Barcelona. O mais novo é arquiteto, mas sempre
teve a música como hobbie ele é
baterista e chegou a tocar no meu grupo durante dois
anos, quando eu ainda morava em São Paulo.
Sou formado
em Arquitetura, mas nunca exerci a profissão.
Sempre estudei música paralelamente ao colégio
e à universidade no Brasil, a música sempre
foi minha paixão e minha realização
pessoal.
A minha
carreira profissional começou no final dos tempos
de colégio. Toquei por muito tempo na noite de
São Paulo, em grupos de diversos estilos. Durante
quatro anos, antes de me mudar para os Estados Unidos,
liderei meu próprio grupo e fizemos diversos
shows. Em 1993, ganhei uma bolsa de estudos para estudar
na Berklee School of Music, em Boston. Me formei em
Guitar Performance e Jazz Composition em 1998. Em seguida,
me mudei para Nova York onde fiz mestrado em Jazz Performance
na Aaron Copland School of Music, Queens Colege. Em
Nova York, sempre toquei com muita gente, principalmente
no cenário da música brasileira, que é
bem grande por aqui. Há dois anos sou o diretor
musical e guitarrista/violonista da cantora africana
Angélique Kidjo.
ejazz:
Fale um pouco sobre sua experiência na Berklee
e dos projetos que ali nasceram. Minha impressão,
dos dias que passei ali, é de que se trata de
uma verdadeira ONU da Música. A linguagem da
música é mesmo universal?
Rubens:
A linguagem da música e totalmente universal!
e a Berklee é uma perfeita tradução
desta frase. Lá existem estudantes de diferentes
países dividindo e compartilhando experiências,
estilos e idéias. Pessoalmente, eu notei que
os estudantes latino-americanos, os africanos e os negros
norte-americanos têm uma identificação
musical e cultural muito grande com seus países
de origem, estão sempre buscando expressar essa
cultura e misturá-la com outros estilos e com
as coisas que aprendem na Berklee. Já os europeus
estão quase que unicamente interessados no Jazz
a maioria dos Europeus já chega a Berklee
tocando muito bem seus instrumentos. Existe também
um bocado de gente que esta lá de gaiato, gastando
o dinheiro dos pais, ou o dinheiro do governo dos países
deles, muita gente que não e do ramo... Não
vamos citar nomes, por favor... [Risos]
Berklee
para mim foi ótimo. Fiquei quase cinco anos lá,
me formei magna cum lauda, o que significa "com
louvor", e recebi um prêmio do Departamento
de Guitarra, além da bolsa de estudos de 75%
baseada na minha experiência e técnica
com o instrumento. Estudei muita coisa de Arranjo, Composição
e Improvisação, alem das matérias
mais básicas como Harmonia e Ear training, mas
o contato diário com essas pessoas de diversas
partes do mundo e a troca de experiências foram
as melhores coisas que ficaram. As matérias e
os estudos formais foram muito importantes, mas acho
que não se comparam a esse contato com outros
músicos tão diferentes.
Ainda na
Berklee, iniciei dois projetos que vieram a resultar
em CDs, Brazz
Jazz e Zabumbatuq.
O Brazz Jazz
começou como um duo de voz e violão, combinando
jazz com MPB. Às vezes o duo se expandia para
trio, quarteto ou quinteto, dependendo da ocasião,
trabalhando com standards do jazz e da MPB gravamos
o CD como um quinteto.
Já o Zabumbatuq era um grupo de música
instrumental que em algumas ocasiões tinha vocalistas
convidados. Tínhamos a intenção
de fazer um bom brazilian jazz, com bons arranjos e
improvisos. O Zabumbatuq também mesclava
os dois estilos e contava com músicos de forte
influencia jazzística.
ejazz:
E a Angélique Kidjo: como surgiu em sua vida?
Rubens:
Em Nova York é muito importante fazer contatos,
tocar com todo mundo, socializar, dar as caras, tocar
em roubadas, fazer amizades, tocar em jam sessions,
trocar números de telefone, fazer gravações...
Somente assim as pessoas começam a saber de você,
se interessar pelo que você toca e pela música
que você faz. Então, um belo dia eu recebi
um telefonema do marido da Angélique, o Jean
Hebrail. Ele foi durante dez anos o diretor musical,
arranjador e baixista da Angélique, e também
é co-autor das músicas. Jean pegou meu
numero de telefone com um amigo em comum e me convidou
para gravar violão nas versões demo do
disco Black Ivory Soul.
Eles gostaram muito do resultado e a partir daí
outras oportunidades começaram a surgir. Passei
então a ser o diretor musical e um dos guitarristas
da banda de Angélique.
 |
Rubens
e Angèlique em Copenhagen, Dinamarca,
em 30 de Abril de 2002 |
ejazz:
Como tem sido seu ritmo de trabalho com a Angélique
Kidjo? A indicação do disco Black Ivory
Soul para o Grammy mudou alguma coisa?
Rubens:
Estamos em turnê há um ano e meio. Primeiramente
abrimos os shows do Dave Matthews e Macy Grey em estádios
para 35, 40, 45 mil pessoas, e excursionamos com os
Neville Brothers. Depois, fizemos um ano de turnê
solo da Angélique por Estados Unidos, Canadá,
Caribe, Japão e Europa, onde estivemos seis vezes.
Ultimamente, abrimos os show do Santana na Europa.
A Angélique
já é bem conhecida na Europa, e cada vez
mais ela está sendo mais reconhecida em outras
partes do mundo. Acho que a indicação
para o Grammy vai ajudar nisso e também no interesse
de outras pessoas em conhecer o trabalho dela.
ejazz:
No disco Black Ivory Soul, a primeira música,
com sua participação no violão,
chama-se Bahia. Fale-me sobre a identificação
de Angélique com a Bahia.
Rubens:
Angélique já foi ao Brasil duas vezes.
Esteve em Salvador uma vez, por um mês. Ela adora
Salvador, se identificou muito com a cultura de uma
maneira geral. Angélique vê muita similaridade
entre Salvador e o Benin, seu país de origem.
A música, os costumes, a língua, a religião
a comida... são coisas que a fizeram se identificar
muito com Salvador. Eu estive no Benin e realmente a
semelhança é enorme.
No Brasil,
Angélique cantou e compôs com Carlinhos
Brown e com Daniela Mercury no disco Black
Ivory Soul tem três músicas de autoria
dela com Brown. A versão brasileira do disco
(a ser lançada no próximo mês) conta
com a participação de Gilberto Gil e Daniela
Mercury devemos fazer turnê no Brasil ainda
neste ano.
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No
Festival de Montreux, em julho de 2002, Caetano
sobe ao palco para interpretar "Sozinho",
acompanhado ao violão por Rubens de la
Corte.
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ejazz: E quanto a seu trabalho autoral: podemos
esperar algo para breve?
Rubens:
Atualmente estou compondo e também re-arranjando
algumas músicas para um possível projeto.
Tenho composto também com o excelente percussionista
Gilmar Iglesias Gomes (que já tocou com Enrique
Iglesias, Harry Belafonte, Daniela Mercury) e trabalhado
juntamente com Sheryl Cohen como arranjador de um projeto
original dela que mistura ritmos contemporâneos
da Bahia com pop e jazz.
QUEM
É ANGÉLIQUE KIDJO
Angélique
Kidjo não é apenas uma das estrelas
mais eletrizantes do mundo pop atual, mas é também
uma de suas artistas mais avançadas e criativas.
Nascida em Benim, e residindo entre Paris e Nova York,
Kidjo iniciou sua carreira solo em 1989, cruzando as
fronteiras musicais entre funk, jazz, salsa, rumba,
souk e makossa (ritmos do Benim).
Em Black
Ivory Soul (Columbia Records), seu sétimo
álbum solo, Kidjo explora o parentesco musical
entre a África e o Brasil especialmente
entre o Benim, sua terra natal, e a Bahia (lembra-se
que o Benim é uma das áreas de origem
dos Yorùbá, grupo étnico com grande
presença na Bahia). O CD traz uma mistura percussiva
de ritmos africanos e brasileiros interpretados pelos
melhores instrumentistas do Benim e de Salvador, e traz
três composições em parceria com
Carlinhos Brown, além da releitura de "Refavela",
clássico de Gilberto Gil.
Conheça
mais sobre Angélique Kidjo
no site oficial da cantora:
www.angeliquekidjo.com

Black Ivory Soul foi indicado para o Grammy
na categoria World Music. Considerando-se o recente
tetracampeonato brasileiro entre 1998 e 2001, com as
premiações de Milton Nascimento, Gilberto
Gil, Caetano Veloso e João Gilberto (em 2002
o vencedor foi o indiano Ravi Shankar), as chances de
levar o Grammy são grandes para Angélique
Kidjo esse ano não há nenhum brasileiro
concorrendo!