Ejazz – o site do jazz e da música instrumental brasileira
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entrevista: RUBENS de la CORTE

"For Export"

Figura conhecida do ambiente musical novaiorquino, Rubens de la Corte é incógnita no Brasil

(por AC Gattaz, correspondente ejazz)

É grande a quantidade de bons músicos brasileiros atuando no exterior, às vezes entre os melhores da música universal, sem sequer serem conhecidos no Brasil. Rubens de la Corte é um desses. Há dez anos vivendo, estudando e trabalhando nos Estados Unidos, onde cursou as renomadas Berklee School of Music (Boston) e Aaron Copland School of Music (Nova York), hoje Rubens é diretor musical e guitarrista/violonista de Angélique Kidjo, cantora africana que vem encantando o público europeu e norte-americano (e, em breve, o brasileiro).

Rubens de la Corte
Rubens de la Corte

ejazz: Eu gostaria que você fizesse um breve histórico da sua trajetória musical.

Rubens de la Corte: Eu comecei a estudar música aos nove anos de idade. Primeiro com violão clássico e aos doze anos também com a guitarra. Sempre estudei e ainda estudo as pecas e a técnica erudita, mas tomei como caminho a veia popular da música brasileira, o jazz e o pop.

Desde o início eu contei com grande apoio familiar. Meus pais sempre me incentivaram para estudar música seriamente e curtiam bastante ao me ver tocando. Tenho dois irmãos que são músicos também. O mais velho é contrabaixista erudito e mora hoje em Barcelona. Ele tocou na Ópera de Frankfurt um tempo e em várias orquestras da Alemanha durante mais de dez anos, e hoje está na Ópera de Barcelona. O mais novo é arquiteto, mas sempre teve a música como hobbie – ele é baterista e chegou a tocar no meu grupo durante dois anos, quando eu ainda morava em São Paulo.

Sou formado em Arquitetura, mas nunca exerci a profissão. Sempre estudei música paralelamente ao colégio e à universidade no Brasil, a música sempre foi minha paixão e minha realização pessoal.

A minha carreira profissional começou no final dos tempos de colégio. Toquei por muito tempo na noite de São Paulo, em grupos de diversos estilos. Durante quatro anos, antes de me mudar para os Estados Unidos, liderei meu próprio grupo e fizemos diversos shows. Em 1993, ganhei uma bolsa de estudos para estudar na Berklee School of Music, em Boston. Me formei em Guitar Performance e Jazz Composition em 1998. Em seguida, me mudei para Nova York onde fiz mestrado em Jazz Performance na Aaron Copland School of Music, Queens Colege. Em Nova York, sempre toquei com muita gente, principalmente no cenário da música brasileira, que é bem grande por aqui. Há dois anos sou o diretor musical e guitarrista/violonista da cantora africana Angélique Kidjo.

ejazz: Fale um pouco sobre sua experiência na Berklee e dos projetos que ali nasceram. Minha impressão, dos dias que passei ali, é de que se trata de uma verdadeira ONU da Música. A linguagem da música é mesmo universal?

Rubens: A linguagem da música e totalmente universal! – e a Berklee é uma perfeita tradução desta frase. Lá existem estudantes de diferentes países dividindo e compartilhando experiências, estilos e idéias. Pessoalmente, eu notei que os estudantes latino-americanos, os africanos e os negros norte-americanos têm uma identificação musical e cultural muito grande com seus países de origem, estão sempre buscando expressar essa cultura e misturá-la com outros estilos e com as coisas que aprendem na Berklee. Já os europeus estão quase que unicamente interessados no Jazz – a maioria dos Europeus já chega a Berklee tocando muito bem seus instrumentos. Existe também um bocado de gente que esta lá de gaiato, gastando o dinheiro dos pais, ou o dinheiro do governo dos países deles, muita gente que não e do ramo... Não vamos citar nomes, por favor... [Risos]

Berklee para mim foi ótimo. Fiquei quase cinco anos lá, me formei magna cum lauda, o que significa "com louvor", e recebi um prêmio do Departamento de Guitarra, além da bolsa de estudos de 75% baseada na minha experiência e técnica com o instrumento. Estudei muita coisa de Arranjo, Composição e Improvisação, alem das matérias mais básicas como Harmonia e Ear training, mas o contato diário com essas pessoas de diversas partes do mundo e a troca de experiências foram as melhores coisas que ficaram. As matérias e os estudos formais foram muito importantes, mas acho que não se comparam a esse contato com outros músicos tão diferentes.

Ainda na Berklee, iniciei dois projetos que vieram a resultar em CDs, Brazz Jazz e Zabumbatuq.

O Brazz Jazz começou como um duo de voz e violão, combinando jazz com MPB. Às vezes o duo se expandia para trio, quarteto ou quinteto, dependendo da ocasião, trabalhando com standards do jazz e da MPB – gravamos o CD como um quinteto.

Já o Zabumbatuq era um grupo de música instrumental que em algumas ocasiões tinha vocalistas convidados. Tínhamos a intenção de fazer um bom brazilian jazz, com bons arranjos e improvisos. O Zabumbatuq também mesclava os dois estilos e contava com músicos de forte influencia jazzística.

ejazz: E a Angélique Kidjo: como surgiu em sua vida?

Rubens: Em Nova York é muito importante fazer contatos, tocar com todo mundo, socializar, dar as caras, tocar em roubadas, fazer amizades, tocar em jam sessions, trocar números de telefone, fazer gravações... Somente assim as pessoas começam a saber de você, se interessar pelo que você toca e pela música que você faz. Então, um belo dia eu recebi um telefonema do marido da Angélique, o Jean Hebrail. Ele foi durante dez anos o diretor musical, arranjador e baixista da Angélique, e também é co-autor das músicas. Jean pegou meu numero de telefone com um amigo em comum e me convidou para gravar violão nas versões demo do disco Black Ivory Soul. Eles gostaram muito do resultado e a partir daí outras oportunidades começaram a surgir. Passei então a ser o diretor musical e um dos guitarristas da banda de Angélique.

Rubens e Angèlique em Copenhagen, Dinamarca,
Rubens e Angèlique em Copenhagen, Dinamarca,
em 30 de Abril de 2002


ejazz: Como tem sido seu ritmo de trabalho com a Angélique Kidjo? A indicação do disco Black Ivory Soul para o Grammy mudou alguma coisa?

Rubens: Estamos em turnê há um ano e meio. Primeiramente abrimos os shows do Dave Matthews e Macy Grey em estádios para 35, 40, 45 mil pessoas, e excursionamos com os Neville Brothers. Depois, fizemos um ano de turnê solo da Angélique por Estados Unidos, Canadá, Caribe, Japão e Europa, onde estivemos seis vezes. Ultimamente, abrimos os show do Santana na Europa.

A Angélique já é bem conhecida na Europa, e cada vez mais ela está sendo mais reconhecida em outras partes do mundo. Acho que a indicação para o Grammy vai ajudar nisso e também no interesse de outras pessoas em conhecer o trabalho dela.

ejazz: No disco Black Ivory Soul, a primeira música, com sua participação no violão, chama-se Bahia. Fale-me sobre a identificação de Angélique com a Bahia.

Rubens: Angélique já foi ao Brasil duas vezes. Esteve em Salvador uma vez, por um mês. Ela adora Salvador, se identificou muito com a cultura de uma maneira geral. Angélique vê muita similaridade entre Salvador e o Benin, seu país de origem. A música, os costumes, a língua, a religião a comida... são coisas que a fizeram se identificar muito com Salvador. Eu estive no Benin e realmente a semelhança é enorme.

No Brasil, Angélique cantou e compôs com Carlinhos Brown e com Daniela Mercury – no disco Black Ivory Soul tem três músicas de autoria dela com Brown. A versão brasileira do disco (a ser lançada no próximo mês) conta com a participação de Gilberto Gil e Daniela Mercury – devemos fazer turnê no Brasil ainda neste ano.

No Festival de Montreux, em julho de 2002, Caetano sobe ao palco para interpretar "Sozinho", acompanhado ao violão por Rubens de la Corte.
No Festival de Montreux, em julho de 2002, Caetano sobe ao palco para interpretar "Sozinho", acompanhado ao violão por Rubens de la Corte.


ejazz:
E quanto a seu trabalho autoral: podemos esperar algo para breve?

Rubens: Atualmente estou compondo e também re-arranjando algumas músicas para um possível projeto. Tenho composto também com o excelente percussionista Gilmar Iglesias Gomes (que já tocou com Enrique Iglesias, Harry Belafonte, Daniela Mercury) e trabalhado juntamente com Sheryl Cohen como arranjador de um projeto original dela que mistura ritmos contemporâneos da Bahia com pop e jazz.


QUEM É ANGÉLIQUE KIDJO

Angélique Kidjo não é apenas uma das estrelas mais eletrizantes do mundo pop atual, mas é também uma de suas artistas mais avançadas e criativas. Nascida em Benim, e residindo entre Paris e Nova York, Kidjo iniciou sua carreira solo em 1989, cruzando as fronteiras musicais entre funk, jazz, salsa, rumba, souk e makossa (ritmos do Benim).

Em Black Ivory Soul (Columbia Records), seu sétimo álbum solo, Kidjo explora o parentesco musical entre a África e o Brasil – especialmente entre o Benim, sua terra natal, e a Bahia (lembra-se que o Benim é uma das áreas de origem dos Yorùbá, grupo étnico com grande presença na Bahia). O CD traz uma mistura percussiva de ritmos africanos e brasileiros interpretados pelos melhores instrumentistas do Benim e de Salvador, e traz três composições em parceria com Carlinhos Brown, além da releitura de "Refavela", clássico de Gilberto Gil.

Conheça mais sobre Angélique Kidjo
no site oficial da cantora:
www.angeliquekidjo.com

Black Ivory Soul – Angélique Kidjo
Black Ivory Soul foi indicado para o Grammy na categoria World Music. Considerando-se o recente tetracampeonato brasileiro entre 1998 e 2001, com as premiações de Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso e João Gilberto (em 2002 o vencedor foi o indiano Ravi Shankar), as chances de levar o Grammy são grandes para Angélique Kidjo – esse ano não há nenhum brasileiro concorrendo!

 

apoio cultural





Nessa entrevista concedida ao correspondente do ejazz em Salvador, Rubens de la Corte fala sobre sua carreira musical, a experiência acadêmico-musical em Berklee, os projetos de que participou e Angélique Kidjo.


 

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