UM
SOPRO CANADENSE
EM FAVOR DA MÚSICA BRASILEIRA
(por
Mona Gadelha, correspondente ejazz)
O saxofonista
Jean-Pierre Zanella prova que o intercâmbio
cultural entre países contribui para a expansão
do mercado de música instrumental brasileira
e sua divulgação no exterior. Consagrado
no Canadá, seu país de origem, ele se
apresentou em várias cidades brasileiras nos
meses de julho e agosto para
lançar
o CD "Zanella - Live in Brazil" (Gravatás
Records, também produtora da série "Indaiá
LoJazztics", no Rio, que teve Zanella como uma
das atrações). O CD foi gravado em agosto
de 2002 no Sesc Paulista, com a participação
de músicos brasileiros e é o quarto
da carreira do saxofonista (depois dos premiados Mystic
Infancy, Mother Tree e Puzzle City). Pelo seu empenho
em mostrar a música brasileira no Canadá,
Zanella já é considerado nosso embaixador.
Altay Veloso, Marcos Valle e Victor Biglione são
alguns dos artistas que já se apresentaram
com ele por lá. Zanella contou para o Ejazz
como "descobriu" o Brasil e como essa relação
marcou sua música.
Ejazz
-
Você fala português e está lançando
um CD ao vivo gravado no Brasil por um selo brasileiro.
Como começou essa relação com
o país e o que isso refletiu na sua música?
Jean-Pierre
Zanella - Tudo começou quando me apaixonei
pela Mima, minha mulher, com quem sou casado há
16 anos. Daí eu mergulhei na cultura brasileira,
pois ela me trouxe aqui em 1988, quando me empolguei
com o país e com o povo.
Também encontrei músicos que se tornaram
amigos desde aquela época. O compositor brasileiro
Altay Veloso foi um deles. De lá pra cá
eu comecei a me interessar mais pela cultura e, especialmente,
pela música brasileira, embora eu já
conhecesse um pouco. Por exemplo, eu sabia quem era
Antonio Carlos Jobim. Também tinha descoberto
o Milton Nascimento, mas nada em termos da estrutura
musical ou mesmo dos ritmos brasileiros.
Isso fiquei sabendo, tocando com os músicos
daqui e perguntando. Eu sou muito curioso e quando
escuto algo que me interessa preciso saber o que é.
E essa relação continua até hoje.
Descubro coisas todo dia, em cada um de meus encontros:
músicos novos ou novas levadas.
Ejazz
- A banda que o acompanha em Montreal está
com você há bastante tempo. E por aqui?
Quem são os músicos que o acompanham
nessa turnê brasileira?
Jean-Pierre
Zanella - A banda que me acompanha em Montreal
é composta de amigos de muito tempo. Nos conhecemos
há uns vinte anos e estamos tocando juntos,
como se diz em inglês "on and off",
ou seja, de vez em quando. Tocamos vários tipos
de gigs - boas, incríveis, mais ou menos. Enfim,
é uma galera muito legal, além de serem
grandes músicos.
No Brasil montamos duas bandas, uma no Rio e outra
em São Paulo. A banda do Rio é composta
por Dario Galante no piano e também Marquinho
Nimirichter no piano, Augusto Mattoso no baixo e Rafael
Barata na bateria. A banda paulista é composta
por Thiago Costa no piano, Pedro Ivo no baixo e Maguinho
Alcântara na bateria. Foi ele, aliás,
quem montou a banda em São Paulo.
Ejazz
- Montreal tem uma tradição jazzy. Um
dos motivos é o famoso festival de jazz anual.
Como é a cena musical na cidade? Há
novos talentos sendo revelados? Há muitos lugares
para se apresentar?
Jean-Pierre
Zanella - Montreal tem sim uma tradição
musical muito forte. Isso vem desde os anos 40. Naquela
época tinha muitos lugares para tocar e a cidade
fazia parte do circuito de jazz. Era como Nova York.
Hoje em dia eu diria que não há tantos
lugares, mas temos um festival de jazz que colocou
a cidade no primeiro lugar entre as que realizam os
grandes festivais do mundo. Em parte, devido ao fato
de o festival oferecer mais do que 350 shows gratuitos
na rua. Eles fecham as quadras e montam vários
palcos.
O som fica rolando sem parar a partir de 12 horas
até a meia-noite. Isso é realmente o
destaque, afora os grandes nomes do jazz que são
convidados todos os anos. Nós temos também
músicos de alto nível: saxofonistas,
trompetistas, bateristas, baixistas etc. Isso é
algo que me alimenta e motiva a continuar estudando
e aperfeiçoando-me como músico.
Ejazz
- Você estudou na Eastman, em Nova York. Como
foi a experiência por lá?
Jean-Pierre
Zanella - A experiência foi muito legal
e me ofereceu a possibilidade de colocar as coisas
em perspectiva, além de também afastar
esse mito que eu tinha, naquela época, de que
todos os americanos eram John Coltrane ou um Michael
Brecker da vida, com todo o respeito que eu tenho
pelo sistema dos Estados Unidos.
Fiz amizade com bastante gente. E foi através
de um deles que eu acabei entrando na banda do Paul
Anka.
Ejazz
- Nas suas apresentações você
costuma tocar "What is this Thing Called Life",
com a qual você ganhou o prêmio da Socan
pela melhor composição de jazz de 1998?
Jean-Pierre
Zanella - Eu costumo tocar, sim, porque é
um bom desafio tecnicamente falando e também
a harmonia é legal, é bem aberta. A
música é baseada na estrutura do standard
"What is this Thing Called Love". Como eu
me pergunto uma porção de coisas a respeito
da vida e do significado das coisas, cheguei a esse
nome aí.
Ejazz
- Como foram as gravações do CD "Live
in Brazil"? Qual é a sua expectativa do
lançamento no mercado brasileiro?
Jean-Pierre
Zanella - A gravação, na verdade,
não foi planejada, pois no início nós
levamos uma fita dat só para ter um registro
do nosso show em São Paulo. Depois, escutando
a gravação, o pessoal ficou muito animado
com a qualidade da fita e com o desempenho da banda.
Surgiu a idéia de fazer um CD com aquilo. O
repertório é todo composto de músicas
minhas, composições que gravei nos CDs
anteriores. Nele há, por exemplo, "Check
Jean", "Jelly Fish", entre outras.
Quanto à expectativa, vamos ver. A Gravatás
Arte e Cultura, empresa do Rio, se envolveu com a
fabricação e divulgação
do disco. Todos estão confiantes e positivos
com o produto. Nós acreditamos que há
um mercado e um público para a música
instrumental.
Agora vamos trabalhar e manter a fé nesse projeto,
e como se diz: "quem viver, verá".
Ejazz
- Você fez uma releitura da obra de Villa-Lobos
este ano num espetáculo sobre a Floresta amazônica,
em Montreal. Como foi essa experiência?
Jean-Pierre
Zanella - Foi maravilhosa. Eu acabei aprendendo
muitas coisas estudando a música do Villa-
Lobos. Por exemplo, aprendi que ele estabeleceu um
certo padrão harmônico que hoje em dia
se encontra na MPB. A obra dele é linda e é
realmente a fusão da cultura brasileira e da
Europa. Meu trabalho foi baseado na obra que ele escreveu,
"Floresta do Amazonas". Fiz os arranjos
para um quinteto de jazz e ficou muito legal. Mima,
minha esposa, pensou em convidar Altay Veloso e Satranga,
um brasileiro que mora em Paris há anos, para
virem cantar os trechos vocais.
Eu quero agitar este projeto e, quem sabe, um dia
apresentá-lo aqui no Brasil. Porque além
de ser um espetáculo com canções,
tem músicas instrumentais com um som bem jazz.
É uma bela mistura.
Ejazz
- Como está sendo feita a distribuição
de seus três álbuns no Brasil?
Jean-Pierre
Zanella - Infelizmente nenhum deles esta disponível
aqui. Eu espero que um dia estejam nas lojas. Até
lá eu vou agitar e ver as possibilidades de
minha gravadora no Canadá com algumas distribuidoras.
Ejazz
- Você acompanhou grandes nomes do jazz e do
pop, como Michel Legrand, Bobby McFerrin e Dione Warwick,
entre outros. Qual desses trabalhos foi mais marcante?
Jean-Pierre
Zanella - Eu creio que qualquer tipo de trabalho
que você faz torna-se uma coisa marcante na
sua vida. O saldo vai sempre ser positivo. Eu não
consigo pensar em um trabalho em particular, que se
tornou assim tão marcante, que mudou minha
vida. Mas eu aprendi muito tocando com os grandes,
tais como Bob Brookmeyer e Chuck Israels. Foi muito
legal, virou um tipo de professor. Enfim, esses encontros
inesperados tornam as coisas marcantes na vida de
cada um de nós.
Ejazz
- Você também se tornou uma espécie
de "embaixador da música brasileira no
Canadá". Como você avalia a possibilidade
desse intercâmbio se intensificar, com mais
músicos brasileiros se apresentando lá
e canadenses aqui?
Jean-Pierre
Zanella - Eu me tornei, sem querer, o embaixador,
mas o que está me dando tanto prazer é
poder divulgar a música instrumental brasileira
no Canadá. Esse trabalho me proporciona só
coisas boas, como por exemplo, a possibilidade de
encontrar músicos daqui super talentosos e
de altíssimo nível e de poder dividir
esse prazer de tocar. Eu quero, ou seja, nós
queremos continuar, pois Mima está também
envolvida comigo nesse projeto de divulgar a música
instrumental daqui e fortalecer esse intercâmbio.
Eu tenho a sorte de conhecer o pessoal do Festival
de Jazz de Montreal e cada vez que tenho a portunidade
de mencionar ou indicar um grupo, não perco
a ocasião. O único jeito de intensificar
esta ponte é tentar veicular mais os grupos
daqui e de lá a fim de divulgar e também
formar um público dos dois lados do hemisfério.