Resenha
ejazz
Formado a partir
do duo entre Rubens
de la Corte (violão) e Sheryl Cohen (voz),
com a adição de um trio acústico
de jazz (contrabaixo, piano e bateria) e um percussionista
para dar o toque brasileiro, o Brazz Jazz mistura
a melhor tradição do bebop e do mainstream
com o samba e a bossa-nova. Embora esta fusão não
seja novidade, e já tenha sido tentada com mais
ou menos sucesso por muitos músicos, o CD "Kick
off your shoes" é uma ótima surpresa
- infelizmente, lançado de maneira independente,
o que dificulta sua divulgação e comercialização.
A primeira música
é sintomática do que vem pela frente: um
legítimo Roger & Hammerstein, que para nossa
surpresa entra em ritmo de samba. O desenvolvimento do
arranjo do Brazz Jazz leva a um bop acelerado,
porém nunca abandonando a base de samba, que ora
se destaca, ora se oblitera por trás da bateria
tipicamente jazzística. Sheryl Cohen surge com
suas características mais marcantes: uma voz poderosa
de contralto e uma pronúncia impecável,
de quem sente prazer em cantar em sua língua, pronunciando
com clareza cada fonema de "My favorite Things".
Segue-se o primeiro dos muitos solos brilhantes de Rubens
no violão. Dedilhando o nylon com uma habilidade
incomum, as submelodias que constrói em seu improviso
são o que mais se destaca. Nada de virtuosismos
para impressionar as platéias, porém o uso
correto da técnica para expressão de sentimentos.
Continuando quase sem corte uma frase interrompida do
violão, segue-se o solo de piano, de Alon Avnai,
no mesmo estilo: menos virtuosismo, mais criatividade.
Uma transição suave marca o final dos solos
para a voz de Sheryl e o retorno do samba. Dá vontade
de dançar.
Não há
como não se sentir pra cima com o começo
entusiasmado do disco, que se mantém em "Kick
off your shoes" (Cy Coleman / Murray Grand), música
que dá título ao CD. Novamente Sheryl mostra
o que tem de melhor, cantando com segurança e clareza.
O ritmo é bastante groovy, o contrabaixo
de Jim Stechschulte caminhando entre a bateria vigorosa
de Steve Langone, ilustrada pelo bongô de Joca Perpignan.
Um solo de piano domina quase todo o arranjo, num crecendo
possível somente numa gravação ao
vivo, e termina dando a deixa para um curto e impressionista
solo de baixo acústico.
Em "Boplicity"
(BeBop Lives) (Miles
Davis / Ray Passman & Holli Ross), Sheryl narra
a história do bebop com sua voz fazendo às
vezes de um instrumento de sopro, o que é uma de
suas marcas. Tal recurso já se nota na primeira
parte, em que a melodia cheia de intervalos dá
oportunidade a Sheryl mostrar também sua capacidade
nos agudos, porém é assumido em sua plenitude
no solo vocal, em que as palavras são abandonadas
em prol de um improviso na língua do bop.
Segue um orgânico solo de violão, em que
o timbre do dedilhado sobre as cordas do violão
é sentido em toda sua clareza. O solo mantém
o espírito do tema, cheio de amplos intervalos
e de grande tessitura. Para encerrar na melhor tradição
jazzística, baixo e bateria alternam-se num diálogo
em fours, dando a deixa para a estrofe final cantada por
Sheryl.
Rosa Morena
(Dorival Caymmi) inaugura o lado introspectivo do CD.
Acompanhada somente pelo violão bossa-nova de Rubens,
Sheryl interpreta em português o clássico
de Caymmi. A preocupação em cantar em língua
que não lhe é natural compromete um pouco
sua interpretação, notando-se uma certa
dureza em sua voz, que não ocorre quando Sheryl
canta em inglês. Não obstante sua limitação
cantando em português, e despidos do preconceito
inicial de ouvir uma norte-americana cantando na língua
de Camões, porém, notamos a versatilidade
de Sheryl, além do original arranjo de violão,
cujo ponto alto é o solo estilo all in one
- conjugando linha de baixo, acordes e melodia.
"Cheryl"
continua o épico iniciado em "Boplicity".
Na meta-lingüística poesia de Sheryl Cohen
para a incrementada melodia de Charlie Parker (Charlie
+ Sheryl = Cheryl), cantada em uníssono com o violão,
novamente está em questão a história
do bebop. Mais um solo bebopístico acompanhada
pelo walking bass demonstra que essa é a
praia de Sheryl. O solo de piano, desta vez, abandona
a criatividade impressionista para recriar o estilo cheio
de escalas, efeitos e blocos do bebop. O solo de violão,
seguindo na mesma trilha, trabalha com clichês típicos
do bebop e com amplos intervalos, o que é uma característica
dos improvisos de Rubens. Para encerrar, um novo solo
de voz estilo trompete, acompanhado em uníssono
pelo violão, dá vez à estrofe final,
cantada com a clareza de sempre por Sheryl.
O morro não
tem vez (Favela) (Tom
Jobim / Vinicius de Moraes), novamente cantada em
português, já mostra uma Sheryl mais segura,
talvez pela presença de todo o grupo, e não
apenas do violão a acompanhá-la, e pela
levada do samba. Num novo solo vocal, a cantora mostra
toda sua criatividade, impregnando de bop a lindíssima
canção de Jobim e Vinícius. Continuando
no mesmo Tom, Sheryl canta mais uma de Jobim, desta vez
em inglês (Bonita, com versão de Ray Gilbert),
em que sua voz mostra-se mais à vontade. Após
uma introdução de voz e violão com
ritmo livre, o arranjo leva a uma típica batida
de bossa-nova, em que se destaca o balanço obtido
pelo contrabaixo - que domina boa parte da música
com um solo melódico e introspectivo.
Após
uma belíssima introdução do violão
inspirada na melhor tradição das big-bands,
entra a voz de Sheryl com toda a sua plenitude a cantar
"Joy Spring" (Clifford
Brown / J. Kaye), um delicioso swing. Desta
vez, a levada é dada pelo violão all
in one de Rubens, que dispensa o acompanhamento da
banda, segurando a base harmônica e o walking
bass. O solo é novamente em duo, num uníssono
entre voz e violão que é marca registrada
do Brazz Jazz.
"Good Morning
Heartache" (Irene Higginbortham / Ervin Drake &
Dan Fischer) é o ponto alto do disco - ao menos
de seu lado introspectivo. Novamente acompanhada somente
pelo violão, Sheryl Cohen interpreta de maneira
exuberante o standard. O arranjo é impecável,
alternando momentos de ritmo livre à imposição
do swing original da canção e mostrando
toda a sintonia entre voz e violão. Em um solo
all in one, em que a sonoridade do violão foi captada
de forma excepcional pelos técnicos de gravação,
Rubens mostra novamente toda sua criatividade.
Encerando o
CD no mesmo espírito up do começo, Brazz
Jazz presta homenagem ao clube da Esquina com "Nada
será como antes" / "Nothing will be as
it was" (Milton Nascimento / Ronaldo Bastos). Tudo
o que foi destaque ao longo do CD ressurge num êxtase
final - a começar pelo arranjo, que transita de
um início acústico e ainda bem brasileiro
para um jazz funkeado bastante enérgico.
Após as duas estrofes iniciais cantadas em inglês
por Sheryl, Yavnai executa um solo de piano de altíssima
qualidade, seguido por mais um solo orgânico e muito
criativo de Rubens. No retorno, Sheryl passa a cantar
a música em português, em sua melhor interpretação
nessa língua.
"Kick off
your shoes", o primeiro CD da parceria Sheryl Cohen
- Rubens de la Corte,
destaca-se pela qualidade dos músicos envolvidos,
pela variedade do repertório e pela originalidade
e simplicidade dos arranjos. Não há excessos,
porém estão presentes tudo o que o jazz
e a bossa têm de essenciais.
AC
Gattaz
Feverreiro de 2003