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Kick Off Your Shoes
Brazz Jazz

Músicos:
Sheryl Cohen - voz
Rubens de la Corte - violão
Alon Yavnai - piano
Jim Stechschulte - contrabaixo
Steve Langone - bateria
Joca Perpignan - percussão

Produzido por Sheryl Cohen
e Rubens de la Corte

Lançamento: 01.09.1998

Faixas:

1. My Favorite Things
2. Kick Off Your Shoes
3. Boplicity
4. Rosa morena
5. Cheryl
6. O Morro Nao Tem Vez (Favela)
7. Bonita
8. Joy Spring
9. Good Morning Heartache
10. Nothing Will Be As It Was

Tempo total: 49' 53"

Resenha ejazz

Formado a partir do duo entre Rubens de la Corte (violão) e Sheryl Cohen (voz), com a adição de um trio acústico de jazz (contrabaixo, piano e bateria) e um percussionista para dar o toque brasileiro, o Brazz Jazz mistura a melhor tradição do bebop e do mainstream com o samba e a bossa-nova. Embora esta fusão não seja novidade, e já tenha sido tentada com mais ou menos sucesso por muitos músicos, o CD "Kick off your shoes" é uma ótima surpresa - infelizmente, lançado de maneira independente, o que dificulta sua divulgação e comercialização.

A primeira música é sintomática do que vem pela frente: um legítimo Roger & Hammerstein, que para nossa surpresa entra em ritmo de samba. O desenvolvimento do arranjo do Brazz Jazz leva a um bop acelerado, porém nunca abandonando a base de samba, que ora se destaca, ora se oblitera por trás da bateria tipicamente jazzística. Sheryl Cohen surge com suas características mais marcantes: uma voz poderosa de contralto e uma pronúncia impecável, de quem sente prazer em cantar em sua língua, pronunciando com clareza cada fonema de "My favorite Things". Segue-se o primeiro dos muitos solos brilhantes de Rubens no violão. Dedilhando o nylon com uma habilidade incomum, as submelodias que constrói em seu improviso são o que mais se destaca. Nada de virtuosismos para impressionar as platéias, porém o uso correto da técnica para expressão de sentimentos. Continuando quase sem corte uma frase interrompida do violão, segue-se o solo de piano, de Alon Avnai, no mesmo estilo: menos virtuosismo, mais criatividade. Uma transição suave marca o final dos solos para a voz de Sheryl e o retorno do samba. Dá vontade de dançar.

Não há como não se sentir pra cima com o começo entusiasmado do disco, que se mantém em "Kick off your shoes" (Cy Coleman / Murray Grand), música que dá título ao CD. Novamente Sheryl mostra o que tem de melhor, cantando com segurança e clareza. O ritmo é bastante groovy, o contrabaixo de Jim Stechschulte caminhando entre a bateria vigorosa de Steve Langone, ilustrada pelo bongô de Joca Perpignan. Um solo de piano domina quase todo o arranjo, num crecendo possível somente numa gravação ao vivo, e termina dando a deixa para um curto e impressionista solo de baixo acústico.

Em "Boplicity" (BeBop Lives) (Miles Davis / Ray Passman & Holli Ross), Sheryl narra a história do bebop com sua voz fazendo às vezes de um instrumento de sopro, o que é uma de suas marcas. Tal recurso já se nota na primeira parte, em que a melodia cheia de intervalos dá oportunidade a Sheryl mostrar também sua capacidade nos agudos, porém é assumido em sua plenitude no solo vocal, em que as palavras são abandonadas em prol de um improviso na língua do bop. Segue um orgânico solo de violão, em que o timbre do dedilhado sobre as cordas do violão é sentido em toda sua clareza. O solo mantém o espírito do tema, cheio de amplos intervalos e de grande tessitura. Para encerrar na melhor tradição jazzística, baixo e bateria alternam-se num diálogo em fours, dando a deixa para a estrofe final cantada por Sheryl.

Rosa Morena (Dorival Caymmi) inaugura o lado introspectivo do CD. Acompanhada somente pelo violão bossa-nova de Rubens, Sheryl interpreta em português o clássico de Caymmi. A preocupação em cantar em língua que não lhe é natural compromete um pouco sua interpretação, notando-se uma certa dureza em sua voz, que não ocorre quando Sheryl canta em inglês. Não obstante sua limitação cantando em português, e despidos do preconceito inicial de ouvir uma norte-americana cantando na língua de Camões, porém, notamos a versatilidade de Sheryl, além do original arranjo de violão, cujo ponto alto é o solo estilo all in one - conjugando linha de baixo, acordes e melodia.

"Cheryl" continua o épico iniciado em "Boplicity". Na meta-lingüística poesia de Sheryl Cohen para a incrementada melodia de Charlie Parker (Charlie + Sheryl = Cheryl), cantada em uníssono com o violão, novamente está em questão a história do bebop. Mais um solo bebopístico acompanhada pelo walking bass demonstra que essa é a praia de Sheryl. O solo de piano, desta vez, abandona a criatividade impressionista para recriar o estilo cheio de escalas, efeitos e blocos do bebop. O solo de violão, seguindo na mesma trilha, trabalha com clichês típicos do bebop e com amplos intervalos, o que é uma característica dos improvisos de Rubens. Para encerrar, um novo solo de voz estilo trompete, acompanhado em uníssono pelo violão, dá vez à estrofe final, cantada com a clareza de sempre por Sheryl.

O morro não tem vez (Favela) (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), novamente cantada em português, já mostra uma Sheryl mais segura, talvez pela presença de todo o grupo, e não apenas do violão a acompanhá-la, e pela levada do samba. Num novo solo vocal, a cantora mostra toda sua criatividade, impregnando de bop a lindíssima canção de Jobim e Vinícius. Continuando no mesmo Tom, Sheryl canta mais uma de Jobim, desta vez em inglês (Bonita, com versão de Ray Gilbert), em que sua voz mostra-se mais à vontade. Após uma introdução de voz e violão com ritmo livre, o arranjo leva a uma típica batida de bossa-nova, em que se destaca o balanço obtido pelo contrabaixo - que domina boa parte da música com um solo melódico e introspectivo.

Após uma belíssima introdução do violão inspirada na melhor tradição das big-bands, entra a voz de Sheryl com toda a sua plenitude a cantar "Joy Spring" (Clifford Brown / J. Kaye), um delicioso swing. Desta vez, a levada é dada pelo violão all in one de Rubens, que dispensa o acompanhamento da banda, segurando a base harmônica e o walking bass. O solo é novamente em duo, num uníssono entre voz e violão que é marca registrada do Brazz Jazz.

"Good Morning Heartache" (Irene Higginbortham / Ervin Drake & Dan Fischer) é o ponto alto do disco - ao menos de seu lado introspectivo. Novamente acompanhada somente pelo violão, Sheryl Cohen interpreta de maneira exuberante o standard. O arranjo é impecável, alternando momentos de ritmo livre à imposição do swing original da canção e mostrando toda a sintonia entre voz e violão. Em um solo all in one, em que a sonoridade do violão foi captada de forma excepcional pelos técnicos de gravação, Rubens mostra novamente toda sua criatividade.

Encerando o CD no mesmo espírito up do começo, Brazz Jazz presta homenagem ao clube da Esquina com "Nada será como antes" / "Nothing will be as it was" (Milton Nascimento / Ronaldo Bastos). Tudo o que foi destaque ao longo do CD ressurge num êxtase final - a começar pelo arranjo, que transita de um início acústico e ainda bem brasileiro para um jazz funkeado bastante enérgico. Após as duas estrofes iniciais cantadas em inglês por Sheryl, Yavnai executa um solo de piano de altíssima qualidade, seguido por mais um solo orgânico e muito criativo de Rubens. No retorno, Sheryl passa a cantar a música em português, em sua melhor interpretação nessa língua.

"Kick off your shoes", o primeiro CD da parceria Sheryl Cohen - Rubens de la Corte, destaca-se pela qualidade dos músicos envolvidos, pela variedade do repertório e pela originalidade e simplicidade dos arranjos. Não há excessos, porém estão presentes tudo o que o jazz e a bossa têm de essenciais.

AC Gattaz
Feverreiro de 2003

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