Resenha
ejazz
Este é o sexto disco da carreira
da cantora e pianista canadense Diana Krall. Como talvez
o leitor já saiba, Krall é uma das cantoras
que mais rapidamente foram alçadas pela mídia,
na segunda metade dos anos 90, à condição
de "nova diva" do jazz. O investimento na imagem
de Diana Krall tem sido pesado, nitidamente maior do que
o recebido pela maioria das outras cantoras. A foto da
capa de The Look of Love, que já deixa bastante
clara a intenção da gravadora de fisgar
o público pelo olhar, é apenas a ponta de
um verdadeiro iceberg de marketing. Isso, a despeito da
irritação que a própria Diana tenta
demonstrar quando perguntada se seu sucesso se deve em
parte à sua imagem, digamos, "hollywoodiana"
(o trocadilho não foi intencional, acreditem).
De qualquer modo, o investimento tem tido retorno certo:
as vendas dos discos de Krall estão na casa dos
milhões de cópias.
A voz de
Diana Krall é agradável de ouvir, num registro
de contralto, em alguns momentos ligeiramente rouca e
velada, exibindo uma quase total ausência de vibrato
que lhe dá uma qualidade fortemente "falada"
ou "sussurrada", indubitavelmente sedutora.
Isso sem dúvida deve agradar muito a uma grande
parcela do público, que se acha mais familiarizada
com a música pop de extração conservadora
do que com o jazz. A extensão vocal é bastante
limitada: Diana demonstra ter problemas ao encarar qualquer
nota mais aguda, principalmente nos finais de frases ascendentes.
Limitada também é a paleta de timbres que
sua voz consegue assumir.
O fato de
o repertório do disco se compor totalmente de baladas
certamente ajuda na sua aceitação comercial,
porém é claro que não representa,
em si mesmo, necessariamente um ponto fraco. (Afinal,
quantos grandes discos de jazz não foram constituídos
apenas por baladas?) Porém a interpretação
que Diana Krall imprime às canções
do disco chega a chamar a atenção pelo seu
caráter sucinto. Ela se limita a expor a letra,
sem nenhuma ousadia em termos musicais. Apesar do tom
intimista, parece haver na abordagem de Diana aos temas
uma curiosa frieza, um certo alheamento em relação
às implicações e desdobramentos escondidos
dentro de cada linha melódica ou célula
rítmica. Embora elegantes, as interpretações
de todas as canções são incomodamente
parecidas entre si. No que tange aos elementos essenciais
de qualquer execução jazzística -
swing e improvisação - essa impressão
de distanciamento se acentua. O fraseado tendendo ao falado
torna difícil identificar onde está o swing.
Acima de tudo, não existe nenhuma improvisação,
nenhuma ornamentação, nenhum desenho melódico
ou síncopa surpreendente, nem sequer um compasso
de scat singing.
Os músicos
que acompanham Diana em The Look of Love são
de excelente nível: Romero Lubambo a
guitarra e violino, Christian McBride ao contrabaixo,
Dori Caymmi ao violão, Russell Malone e John Pisano
à guitarra, Peter Erskine e Jeff Hamilton à
bateria, Luis Conte e Paulinho da Costa à percussão.
Porém os acompanhamentos são discretos,
cumprindo exclusivamente a função de proporcionar
uma moldura à voz da vocalista. A propósito,
é interessante notar que metade deles se vale de
batidas de bossa nova (em Swonderful,
I remember you, Besame mucho,
Dancing in the dark e The look of love).
Os arranjos de cordas de Claus Ogerman, onipresentes em
todo o disco, rigorosamente convencionais e previsíveis,
diluem ainda mais o conteúdo jazzístico,
e em nada contribuem para afastar a impressão de
este é um produto feito com propósitos mais
comerciais do que musicais.
Neste disco
o piano de Diana Krall pouco aparece, o que chegou a ser
lamentado por alguns críticos. O fato de Diana
ser também pianista foi muito citado, nos últimos
anos, como uma evidência a mais de que ela reunia
as condições necessárias para ser
a diva máxima do jazz. Quanto a isso, é
preciso esclarecer desde logo: ela é uma pianista
de recursos bastante modestos.
Tudo bem
pesado e considerado, o resultado de uma análise
do novo disco de Diana Krall terá que se resumir
ao seguinte: ela pode ser uma chanteuse popular
agradável e até sedutora, mas este seu The
Look of Love tem importância estritamente decorativa.
Não traz rigorosamente nada de propriamente jazzístico
para o ouvinte, muito menos acrescenta algo de novo ao
universo já um tanto saturado da música
vocal. Indicações: no máximo, para
se ouvir como fundo musical à luz de velas, caso
se apresente a ocasião...
Valter
Alnis Bezerra