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resenhas CDs

Come Dream with Me
Jane Monheit, vocal

gravadora: Warlock Records (EUA
distribuidora:
Abril Music (Brasil)

músicos participantes: Kenny Barron: Piano / Richard Bona: Guitarra e Baixo / Michael Brecker: Sax / Tom Harrell: Trompete / Gregory Hutchinson: Bateria / Christian McBride: Baixo

data de lançamento: Maio de 2001 (EUA);
Agosto de 2001 (Brasil)

    1. Over The Rainbow
    2. Hit The Road To Dreamland
    3. Spring Can Really Hang You Up The Most
    4. Waters Of March
    5. I'm Through With Love
    6. I'll Be Seeing You
    7. Something To Live For
    8. So Many Stars
    9. If
    10. Blame It On My Youth
    11. A Case Of You

Resenha ejazz

Este é o segundo disco de Jane Monheit, inegavelmente uma das maiores revelações do jazz vocal nos últimos anos. Depois de tirar em 1998 o segundo lugar na competição vocal do Thelonious Monk Institute - diante de um júri composto por Dee Dee Bridgewater, Nnenna Freelon, Diana Krall, Dianne Reeves e Joe Williams - Jane havia lançado seu primeiro disco, Never Never Land, em 2000.

Primeiro, alguns fatos: Jane Monheit tem uma voz resplandescente, absolutamente excepcional. Timbre puro em toda a extensão, agudos cristalinos, emitidos sem esforço, fraseado ágil e seguro, perfeito controle sobre a amplitude do vibrato imprimido a cada final de frase, e domínio total dos pianíssimos - tudo isso banhado por um swing sutil. Isso nos faz às vezes pensar que finalmente nos está sendo dado escutar uma criatura cuja existência parecia improvável, senão impossível: uma vocalista que possui a técnica de uma cantora clássica combinada com a flexibilidade e o swing de uma cantora de jazz. (É bom lembrar que as tentativas anteriores de cantoras líricas abordarem o repertório jazzístico se revelaram pífias ou, na melhor das hipóteses, pouco convincentes, mesmo que no fundo sinceras.)

O perfil “clássico” da voz de Monheit foi a razão pela qual alguns críticos logo a classificaram como uma cantora “retrô”, que se abstém de radicalismos ou grandes inovações. De fato, ela pouco faz no sentido de romper com as convenções do canto jazzístico. Jane nunca quebra a porcelana nem risca a prataria; ao contrário, ela faz questão de se manter fiel a um padrão clássico de beleza. Isso não constitui, em si, um grande pecado: afinal, ainda existe muito espaço para que as cantoras desenvolvam o repertório standard com elegância e sutileza.

Os músicos pelos quais Jane se faz acompanhar também fornecem uma moldura mais do que adequada para sua voz. Em Come Dream With Me, Jane Monheit é acompanhada por instrumentistas de qualidade incontestável: o veterano Kenny Barron ao piano, Christian McBride ao contrabaixo e Gregory Hutchinson à bateria, mais participações de Michael Brecker ao sax, Tom Harrell ao trompete e Richard Bona à guitarra. No disco anterior, convém lembrar, o contrabaixista era ninguém menos que o grande Ron Carter.

Com a escolha do repertório, começamos a entrar naqueles aspectos do novo disco de Jane que podem merecer alguns reparos. Nada a censurar quanto à escolha dos standards e mesmo da versão em inglês de “Águas de março” de Tom Jobim. Porém a mistura de alguns temas pop adocicados ao repertório do disco, como “If” (inclusive com direito a dubbing da voz de Jane) e “A Case of You” (onde a interpretação de Jane lembra um bocado a suave cantora folk Jewel Kilcher), para não falar na batida “Over the Rainbow”, é de gosto um tanto duvidoso, embora o resultado não seja desagradável de ouvir.

Mas talvez o maior problema com o estágio atual da arte de Jane Monheit esteja em algo que não é culpa dela, nem precisa constituir, por enquanto, motivo de preocupação para os que acompanham sua carreira. Devido à extraordinária qualidade de sua voz - que parece ter nascido já perfeita, madura e capaz - somos levados a esperar uma igual maturidade em suas interpretações. E, como se pode perceber escutando Come Dream With Me, ainda é cedo: é preciso deixar que a passagem do tempo some experiência musical e amadurecimento expressivo à sua música. Embora as interpretações de Monheit sejam corretas, às vezes são um tanto preciosistas. Por enquanto, Jane ocasionalmente ainda cai presa da vontade de mostrar o que é capaz de fazer com a própria voz. Ainda lhe falta aquele mergulho interior, próprio das grandes intérpretes, em busca da essência de cada tema, abaixo da superfície, por assim dizer (por mais cintilante que esta possa ser).

A musicalidade inata de Jane Monheit é tão extraordinária que podemos ficar otimistas quanto à perspectiva de seu amadurecimento como intérprete. Enquanto isso, devemos apreciar este seu Come Dream With Me exatamente como ele se coloca, isto é, como um doce de sabor sutil, preparado com genuíno carinho e cuidado, e que prenuncia (assim esperamos) sabores mais ricos e complexos.

Valter Alnis Bezerra

apoio cultural


 

 

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