Resenha
ejazz
Este é
o segundo disco de Jane Monheit, inegavelmente uma das
maiores revelações do jazz vocal nos últimos
anos. Depois de tirar em 1998 o segundo lugar na competição
vocal do Thelonious Monk Institute - diante de um júri
composto por Dee Dee Bridgewater, Nnenna Freelon, Diana
Krall, Dianne Reeves e Joe Williams - Jane havia lançado
seu primeiro disco, Never Never Land, em 2000.
Primeiro,
alguns fatos: Jane Monheit tem uma voz resplandescente,
absolutamente excepcional. Timbre puro em toda a extensão,
agudos cristalinos, emitidos sem esforço, fraseado
ágil e seguro, perfeito controle sobre a amplitude
do vibrato imprimido a cada final de frase, e domínio
total dos pianíssimos - tudo isso banhado por um
swing sutil. Isso nos faz às vezes pensar que finalmente
nos está sendo dado escutar uma criatura cuja existência
parecia improvável, senão impossível:
uma vocalista que possui a técnica de uma cantora
clássica combinada com a flexibilidade e o swing
de uma cantora de jazz. (É bom lembrar que as tentativas
anteriores de cantoras líricas abordarem o repertório
jazzístico se revelaram pífias ou, na melhor
das hipóteses, pouco convincentes, mesmo que no
fundo sinceras.)
O perfil
clássico da voz de Monheit foi a razão
pela qual alguns críticos logo a classificaram
como uma cantora retrô, que se abstém
de radicalismos ou grandes inovações. De
fato, ela pouco faz no sentido de romper com as convenções
do canto jazzístico. Jane nunca quebra a porcelana
nem risca a prataria; ao contrário, ela faz questão
de se manter fiel a um padrão clássico de
beleza. Isso não constitui, em si, um grande pecado:
afinal, ainda existe muito espaço para que as cantoras
desenvolvam o repertório standard com elegância
e sutileza.
Os músicos
pelos quais Jane se faz acompanhar também fornecem
uma moldura mais do que adequada para sua voz. Em Come
Dream With Me, Jane Monheit é acompanhada por
instrumentistas de qualidade incontestável: o veterano
Kenny Barron ao piano, Christian McBride ao contrabaixo
e Gregory Hutchinson à bateria, mais participações
de Michael Brecker ao sax, Tom Harrell ao trompete e Richard
Bona à guitarra. No disco anterior, convém
lembrar, o contrabaixista era ninguém menos que
o grande Ron Carter.
Com a escolha
do repertório, começamos a entrar naqueles
aspectos do novo disco de Jane que podem merecer alguns
reparos. Nada a censurar quanto à escolha dos standards
e mesmo da versão em inglês de Águas
de março de Tom Jobim. Porém a mistura
de alguns temas pop adocicados ao repertório do
disco, como If (inclusive com direito a dubbing
da voz de Jane) e A Case of You (onde a interpretação
de Jane lembra um bocado a suave cantora folk Jewel Kilcher),
para não falar na batida Over the Rainbow,
é de gosto um tanto duvidoso, embora o resultado
não seja desagradável de ouvir.
Mas talvez
o maior problema com o estágio atual da arte de
Jane Monheit esteja em algo que não é culpa
dela, nem precisa constituir, por enquanto, motivo de
preocupação para os que acompanham sua carreira.
Devido à extraordinária qualidade de sua
voz - que parece ter nascido já perfeita, madura
e capaz - somos levados a esperar uma igual maturidade
em suas interpretações. E, como se pode
perceber escutando Come Dream With Me, ainda é
cedo: é preciso deixar que a passagem do tempo
some experiência musical e amadurecimento expressivo
à sua música. Embora as interpretações
de Monheit sejam corretas, às vezes são
um tanto preciosistas. Por enquanto, Jane ocasionalmente
ainda cai presa da vontade de mostrar o que é capaz
de fazer com a própria voz. Ainda lhe falta aquele
mergulho interior, próprio das grandes intérpretes,
em busca da essência de cada tema, abaixo da superfície,
por assim dizer (por mais cintilante que esta possa ser).
A musicalidade
inata de Jane Monheit é tão extraordinária
que podemos ficar otimistas quanto à perspectiva
de seu amadurecimento como intérprete. Enquanto
isso, devemos apreciar este seu Come Dream With Me
exatamente como ele se coloca, isto é, como um
doce de sabor sutil, preparado com genuíno carinho
e cuidado, e que prenuncia (assim esperamos) sabores mais
ricos e complexos.
Valter
Alnis Bezerra