Resenha
ejazz
Enfim
o primeiro e brilhante disco do saxofonista brasileiro
J. T. Meirelles está sendo relançado pela
Dubas / Universal. Esta gravação antológica,
de 1964, foi durante anos um cobiçado item de colecionador.
E não sem razão, porque transborda de méritos
artísticos. Infelizmente para a música brasileira,
Meirelles gravou apenas mais um disco além deste,
entrando depois num silêncio de vários anos,
período em que foi trabalhar como arranjador para
a gravadora Odeon e também como desktop publisher
de partituras.
O grupo que
toca com Meirelles em O Som é uma máquina
instrumental das mais bem ajustadas, com Pedro Paulo ao
trompete, esbanjando desenvoltura, e uma seção
rítmica composta por Luis Carlos Vinhas ao piano,
Manoel Gusmão ao contrabaixo e Dom Um Romão
à bateria. Nas faixas bônus, provenientes
do segundo disco de Meirelles, O Novo Som, Manoel
Gusmão continua tocando contrabaixo, e a ele se
juntam Roberto Menescal (violão), Waltel Branco
(guitarra), Eumir Deodato (piano) e Edison
Machado (bateria); Meirelles passa a tocar também
flauta.
O disco que
agora temos novamente o privilégio de ter em mãos
é um dos mais finos produtos do samba-jazz,
que tem em Meirelles um dos mentores. O estilo também
poderia ser descrito como uma espécie de west
coast jazz brasileiro. Como o próprio Meirelles
relatou em entrevista, havia influências do bop
(Sonny Rollins)
e do cool
(Stan
Getz). O som que Meirelles tira do sax
tenor é nítido e um tanto metálico,
privilegiando a região aguda do instrumento, e
seu fraseado é preciso. Todos os temas do disco
são de sua autoria.
Impossível
não se entusiasmar com a faixa de abertura, Quintessência,
com suas tercinas e staccattos alternando-se saborosamente
com um legítimo samba. Todo o grupo funciona
como uma mola, comenta a propósito o saxofonista
nas notas do CD. A faixa seguinte, Solitude,
possui uma seção inicial profundamente cool,
com uma mudança de andamento na parte central,
para depois revisitar a introdução e se
encerrar com uma breve coda que deixa a harmonia da peça
em suspenso. Blue Bottles vem a seguir,
e constitui um excelente exemplo do que vem a ser o samba-jazz:
a pulsação nunca deixa de ser a do samba,
e no entanto as progressões harmônicas e
os improvisos são plenamente jazzísticos.
Nordeste, a quarta faixa, embora não
evoque muito o Nordeste brasileiro (a despeito do que
sugerem as notas do CD) é uma competente bossa
nova que lembra o Zimbo
Trio o mesmo acontecendo com a sexta faixa,
Tânia. Entre estas duas, temos a extraordinária
Contemplação, que é,
juntamente com a faixa de abertura, um dos pontos altos
do disco. O clima da execução lembra bastante
All Blues, tema do disco Kind of Blue,
de Miles Davis , a mais corente com o restante do disco,
enquanto O Novo Som e Serelepe
estabelecem um clima mais festivo.
O Som
é um disco que não envelheceu nem ficou
datado ao longo destas quase quatro décadas, o
que atesta a validade da visão musical de Meirelles.
É um relançamento obrigatório para
quem aprecia a música instrumental brasileira.
Para alegria de ouvintes, músicos amadores e instrumentistas
profissionais, o próprio saxofonista resolveu colocar
on-line as partituras das seis primeiras faixas, que estão
disponíveis em seu site pessoal na Internet, no
endereço www.jtmeirelles.hpg.com.br
Valter
Alnis Bezerra