Resenha
ejazz
Difícil
não se emocionar ao ver, finalmente relançado
em CD (pelo selo Editio Princeps, no segundo semestre
de 2002), um disco que é um dos registros mais
importantes de toda a música instrumental brasileira.
Trata-se de "Marcha sobre a cidade", obra de
1979 do lendário Grupo Um. O conjunto, que
atuou entre 1977 e 1982, criou três discos, dos
quais este foi o primeiro (os outros dois foram "Reflexões
sobre a crise do desejo", de 1981, e "A flor
de plástico incinerada", de 1982). Liderado
pelo cerebral tecladista Lelo Nazário, o Grupo
Um foi um dos mais ousados, densos e radicais experimentos
sonoros já empreendidos no Brasil. Mesmo em meio
ao panorama de efervescência criativa que reinava
na música de vanguarda na capital paulista durante
os anos 80, o conjunto conseguia se destacar como um representante
de ponta. Na época do primeiro disco, a formação
incluía o baterista e percussionista Zé
Eduardo Nazário (irmão de Lelo), o contrabaixista
Zeca Assumpção, o percussionista Carlinhos
Gonçalves e o saxofonista Mauro Senise. Anteriormente,
por um breve período inicial, passara pelo grupo
o saxofonista Roberto Sion. Posteriormente, também
fariam parte do grupo Felix Wagner, Teco Cardoso e Rodolfo
Stroeter.
"Marcha
sobre a cidade" é um disco assombroso, que
poderia ser descrito, em poucas palavras, como um verdadeiro
manifesto free brasileiro. Ele nos apresenta, por
um lado, uma vertiginosa e feroz liberdade criativa, mas
também, por outro lado, um pensamento musical altamente
racional e estruturado. Músicos que talvez possam
apresentar alguma semelhança com essa "liberdade
estruturada" seriam, por exemplo, Anthony
Braxton ou Cecil
Taylor. A música do Grupo Um, embora
geralmente atonal - ou, no mínimo, com harmonias
modais - estava longe de ser caótica ou maçante
como a da maioria dos grupos free tradicionais.
Ela dispunha, ademais, de uma estimulante pulsação,
um beat especificamente brasileiro - isso sem falar
nas perceptíveis influências orientais. Sem
dúvida, uma das marcas registradas do grupo era
o piano elétrico muito peculiar de Lelo Nazário,
onde proliferavam longas e velocíssimas guirlandas
de notas, que lembram, em certo sentido, as sheets
of sound de John
Coltrane. Porém o grupo tinha a virtude de
funcionar de tal modo que cada um dos integrantes conseguia
contribuir com sua sensibilidade pessoal, e sua própria
dose de idéias, para o resultado geral.
O disco se
inicia com a enérgica "[B(2)/10 - O.75 - K.78]
- P(2) - [O(4)/8 - O.75 - K.77]", composição
que revela a familiaridade do grupo com uma linguagem
musical que inclui a rápida variação
de ritmos e a alternância de climas. (Os misteriosos
títulos cifrados de algumas composições
nada mais eram do que esquemas abreviados para a estrutura
das peças, úteis para a orientação
dos próprios músicos.) Segue-se, sem interrupção,
a faixa "Sangue de negro", um solo de Zé
Eduardo com forte inspiração afro, que em
certos momentos lembra Naná
Vasconcelos. (Curiosamente, a faixa tem a duração
de 4'33" - cifra que, como se sabe, serviu de título
à famosa e polêmica "composição
silenciosa" de John Cage.) Novamente sem interrupção,
somos então levados à faixa-título,
que apresenta uma estrutura aproximadamente simétrica
do tipo ABCBA. Depois de uma imponente e cadenciada introdução,
segue-se uma seção em andamento mais rápido,
com o contrabaixo e a bateria fornecendo uma base rítmica
de caráter bastante jazzístico, sobre a
qual Senise e Lelo traçam solos tipicamente free.
O clima muda novamente, tornando-se então introspectivo,
para reassumir posteriormente, por um breve período,
o clima free. A peça se encerra reexpondo o tema
introdutório.
A quarta
faixa, intitulada "A porta do 'sem nexo'" é,
segundo penso, um dos pontos altos do disco. (O título
era, segundo Lelo, uma bem-humorada alfinetada naqueles
que viam na improvisação free meramente
um caminho para o nonsense.) A primeira seção
da peça, com 4 minutos e 33 segundos (de novo!
John Cage ficaria felicíssimo ao saber disso) estabelece
uma atmosfera rarefeita, com harmônicos do contrabaixo
elétrico, acordes suaves do piano elétrico
e pequenas pontuações da percussão,
encimadas por rabiscos nervosos da flauta. Gradualmente
é traçado um lento crescendo que
prepara a entrada da segunda seção, de caráter
contrastante com a anterior. Aqui temos um drive,
uma levada rítmica poderosa, onde é difícil
não se deixar contagiar pela pulsação
da bateria, pelo fraseado do contrabaixo, pelo ímpeto
dos breves solos individuais, e pela coesão do
grupo como um todo. Os últimos dois minutos são
de um impetuoso ostinato, proporcionando o clímax
da peça.
A faixa seguinte,
"54754 - P(4) - D(3) - O", com seu andamento
rapidíssimo e cheio de síncopas nas seções
inicial e final, poderia ser chamada de "bebop
free". A seção central contém
novamente um vigoroso solo free de Senise. A sexta
faixa, "Dala" (a última na edição
em LP), é um duo para piano acústico e sax
soprano, com harmonias impressionistas e clima introspectivo,
bem diferente do restante do disco, mostrando que os freejazzmen
também têm seu lado lírico.
A primeira
faixa bônus, "N'daê", possui três
seções distintas, pontuadas pelo tipo de
percussão utilizada em cada uma - na primeira delas
a tabla, na segunda a khena do Laos, e na terceira
o berimbau. Na segunda faixa bônus, temos um registro
da formação inicial do grupo, gravado antes
da entrada de Senise. O sax soprano fica a cargo de Roberto
Sion, que tem um fraseado mais contínuo e sustentado
do que seu sucessor, mas não decepciona no improviso
em linguagem free. As duas partes, "Festa
dos pássaros" e "C(2)/9 - O.74 - K.76",
são tocadas sem interrupção. O contrabaixo,
com o som aqui e ali modificado por um tipo de uá-uá
(o mesmo acontece, em certos momentos, com o piano elétrico)
emite belos sons harmônicos na breve parte inicial
e, na segunda parte, funciona novamente como força
propulsora do poderoso ostinato rítmico.
Nas mais
de duas décadas que se passaram, "Marcha sobre
a cidade" não envelheceu nada. Nas notas do
livreto que acompanha o CD, Lelo comenta sobre a simplicidade
do estúdio de que o grupo dispunha em 1979 para
gravar o disco. Isso prova, mais uma vez - especialmente
nestes tempos que correm, onde a alta tecnologia, os efeitos
digitais e o excesso de produção são
freqüentemente usados para mascarar a falta de conteúdo
musical - que nada é obstáculo quando se
tem um grupo de músicos com mentes criativas, sensibilidade
apurada e elevada proficiência técnica, reunidos
em torno do objetivo de criar uma música pura,
inventiva e livre.
Resta elogiar
a Editio Princeps pela oportuníssima inciativa
e aguardar, na maior expectativa, os prometidos relançamentos
dos outros discos do Grupo Um. Assim se poderá
resgatar - mais do que merecidamente, aliás - em
sua totalidade, e junto a um público mais amplo,
este grande experimento que marcou a música de
invenção brasileira.
Valter
Alnis Bezerra
Janeiro de 2003