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resenhas CDs

Marcha sobre a Cidade
Grupo Um


Músicos:
Lelo Nazário (p, perc)
Zeca Assumpção (cb, perc, p)
Zé Eduardo Nazário (b, perc)
Carlinhos Gonçalves (perc)
Mauro Senise (ss, sa, fl)
Roberto Sion (ss).

Participação especial:
Mauro Senise (sax soprano, sax alto e flauta)
Roberto Sion (sax soprano)

Lançamento original (LP): Lira Paulistana, 1979
Relançamento (CD): Editio Princeps, 2002

Faixas:
1. [B(2)/10 - O.75 - K.78] - P(2) - [O(4)/8 - O.75 - K.77]
2. Sangue de negro
3. Marcha sobre a cidade
4. A porta do 'sem nexo'
5. 54754 - P(4) - D(3) - O
6. Dala
7. N'daê
8. (a) Festa dos pássaros; (b) C(2)/9 - O.74 - K.76

Tempo total: 59'11"

Resenha ejazz

Difícil não se emocionar ao ver, finalmente relançado em CD (pelo selo Editio Princeps, no segundo semestre de 2002), um disco que é um dos registros mais importantes de toda a música instrumental brasileira. Trata-se de "Marcha sobre a cidade", obra de 1979 do lendário Grupo Um. O conjunto, que atuou entre 1977 e 1982, criou três discos, dos quais este foi o primeiro (os outros dois foram "Reflexões sobre a crise do desejo", de 1981, e "A flor de plástico incinerada", de 1982). Liderado pelo cerebral tecladista Lelo Nazário, o Grupo Um foi um dos mais ousados, densos e radicais experimentos sonoros já empreendidos no Brasil. Mesmo em meio ao panorama de efervescência criativa que reinava na música de vanguarda na capital paulista durante os anos 80, o conjunto conseguia se destacar como um representante de ponta. Na época do primeiro disco, a formação incluía o baterista e percussionista Zé Eduardo Nazário (irmão de Lelo), o contrabaixista Zeca Assumpção, o percussionista Carlinhos Gonçalves e o saxofonista Mauro Senise. Anteriormente, por um breve período inicial, passara pelo grupo o saxofonista Roberto Sion. Posteriormente, também fariam parte do grupo Felix Wagner, Teco Cardoso e Rodolfo Stroeter.

"Marcha sobre a cidade" é um disco assombroso, que poderia ser descrito, em poucas palavras, como um verdadeiro manifesto free brasileiro. Ele nos apresenta, por um lado, uma vertiginosa e feroz liberdade criativa, mas também, por outro lado, um pensamento musical altamente racional e estruturado. Músicos que talvez possam apresentar alguma semelhança com essa "liberdade estruturada" seriam, por exemplo, Anthony Braxton ou Cecil Taylor. A música do Grupo Um, embora geralmente atonal - ou, no mínimo, com harmonias modais - estava longe de ser caótica ou maçante como a da maioria dos grupos free tradicionais. Ela dispunha, ademais, de uma estimulante pulsação, um beat especificamente brasileiro - isso sem falar nas perceptíveis influências orientais. Sem dúvida, uma das marcas registradas do grupo era o piano elétrico muito peculiar de Lelo Nazário, onde proliferavam longas e velocíssimas guirlandas de notas, que lembram, em certo sentido, as sheets of sound de John Coltrane. Porém o grupo tinha a virtude de funcionar de tal modo que cada um dos integrantes conseguia contribuir com sua sensibilidade pessoal, e sua própria dose de idéias, para o resultado geral.

O disco se inicia com a enérgica "[B(2)/10 - O.75 - K.78] - P(2) - [O(4)/8 - O.75 - K.77]", composição que revela a familiaridade do grupo com uma linguagem musical que inclui a rápida variação de ritmos e a alternância de climas. (Os misteriosos títulos cifrados de algumas composições nada mais eram do que esquemas abreviados para a estrutura das peças, úteis para a orientação dos próprios músicos.) Segue-se, sem interrupção, a faixa "Sangue de negro", um solo de Zé Eduardo com forte inspiração afro, que em certos momentos lembra Naná Vasconcelos. (Curiosamente, a faixa tem a duração de 4'33" - cifra que, como se sabe, serviu de título à famosa e polêmica "composição silenciosa" de John Cage.) Novamente sem interrupção, somos então levados à faixa-título, que apresenta uma estrutura aproximadamente simétrica do tipo ABCBA. Depois de uma imponente e cadenciada introdução, segue-se uma seção em andamento mais rápido, com o contrabaixo e a bateria fornecendo uma base rítmica de caráter bastante jazzístico, sobre a qual Senise e Lelo traçam solos tipicamente free. O clima muda novamente, tornando-se então introspectivo, para reassumir posteriormente, por um breve período, o clima free. A peça se encerra reexpondo o tema introdutório.

A quarta faixa, intitulada "A porta do 'sem nexo'" é, segundo penso, um dos pontos altos do disco. (O título era, segundo Lelo, uma bem-humorada alfinetada naqueles que viam na improvisação free meramente um caminho para o nonsense.) A primeira seção da peça, com 4 minutos e 33 segundos (de novo! John Cage ficaria felicíssimo ao saber disso) estabelece uma atmosfera rarefeita, com harmônicos do contrabaixo elétrico, acordes suaves do piano elétrico e pequenas pontuações da percussão, encimadas por rabiscos nervosos da flauta. Gradualmente é traçado um lento crescendo que prepara a entrada da segunda seção, de caráter contrastante com a anterior. Aqui temos um drive, uma levada rítmica poderosa, onde é difícil não se deixar contagiar pela pulsação da bateria, pelo fraseado do contrabaixo, pelo ímpeto dos breves solos individuais, e pela coesão do grupo como um todo. Os últimos dois minutos são de um impetuoso ostinato, proporcionando o clímax da peça.

A faixa seguinte, "54754 - P(4) - D(3) - O", com seu andamento rapidíssimo e cheio de síncopas nas seções inicial e final, poderia ser chamada de "bebop free". A seção central contém novamente um vigoroso solo free de Senise. A sexta faixa, "Dala" (a última na edição em LP), é um duo para piano acústico e sax soprano, com harmonias impressionistas e clima introspectivo, bem diferente do restante do disco, mostrando que os freejazzmen também têm seu lado lírico.

A primeira faixa bônus, "N'daê", possui três seções distintas, pontuadas pelo tipo de percussão utilizada em cada uma - na primeira delas a tabla, na segunda a khena do Laos, e na terceira o berimbau. Na segunda faixa bônus, temos um registro da formação inicial do grupo, gravado antes da entrada de Senise. O sax soprano fica a cargo de Roberto Sion, que tem um fraseado mais contínuo e sustentado do que seu sucessor, mas não decepciona no improviso em linguagem free. As duas partes, "Festa dos pássaros" e "C(2)/9 - O.74 - K.76", são tocadas sem interrupção. O contrabaixo, com o som aqui e ali modificado por um tipo de uá-uá (o mesmo acontece, em certos momentos, com o piano elétrico) emite belos sons harmônicos na breve parte inicial e, na segunda parte, funciona novamente como força propulsora do poderoso ostinato rítmico.

Nas mais de duas décadas que se passaram, "Marcha sobre a cidade" não envelheceu nada. Nas notas do livreto que acompanha o CD, Lelo comenta sobre a simplicidade do estúdio de que o grupo dispunha em 1979 para gravar o disco. Isso prova, mais uma vez - especialmente nestes tempos que correm, onde a alta tecnologia, os efeitos digitais e o excesso de produção são freqüentemente usados para mascarar a falta de conteúdo musical - que nada é obstáculo quando se tem um grupo de músicos com mentes criativas, sensibilidade apurada e elevada proficiência técnica, reunidos em torno do objetivo de criar uma música pura, inventiva e livre.

Resta elogiar a Editio Princeps pela oportuníssima inciativa e aguardar, na maior expectativa, os prometidos relançamentos dos outros discos do Grupo Um. Assim se poderá resgatar - mais do que merecidamente, aliás - em sua totalidade, e junto a um público mais amplo, este grande experimento que marcou a música de invenção brasileira.

Valter Alnis Bezerra
Janeiro de 2003

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