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resenhas CDs

Viola Nordestina
Heraldo do Monte
(viola, violões de aço e nylon, baixola e contrabaixo)

Participações especiais:

Luis do Monte (violões de aço e nylon) e Déo de Araújo (percussão)

gravadora: Karup (Brasil)
distribuidora: Karup (Brasil)
data de lançamento: 2000

  1. Qui nem jiló
  2. Sebastiana
  3. Darlene triste
  4. Rapadura
  5. Primeiro sorriso
  6. Maria Betânia
  7. Roseira do norte
  8. Lamento sertanejo
  9. Estrela maga
  10. Xanduzinha
  11. Vola nordestina
  12. Cabocolinho
  13. Fanga
  14. Lágrima nordestina

Resenha ejazz

Este CD recente de Heraldo do Monte, onde encontramos o maior violonista brasileiro em plena maturidade artística, é bem representativo da sua fase atual. Acima de tudo, este disco lançado pelo valoroso selo Kuarup é coerente com as obras anteriores de Heraldo. Estão presentes todas aquelas características da sua música que já aprendemos a admirar: a técnica impecável, a clareza do som, a nitidez no fraseado, os improvisos espirituosos, o compromisso profundo com as formas e os ritmos brasileiros, o equilíbrio entre expansividade e introspecção. Como indica o próprio título do CD, este é um disco centrado nos ritmos do Nordeste brasileiro. Segundo seu costume, ao longo das várias faixas Heraldo passeia por diferentes instrumentos: violão com cordas de nylon, viola, violão com cordas de aço, baixola e contrabaixo, tendo ainda as participações de Luis do Monte (violão de aço e nylon) e Déo de Araújo (percussão).

Neste CD, Heraldo escolheu partir de temas que geralmente possuem melodia e estrutura harmônica básica bastante despojadas, sendo seis deles de sua própria autoria. Ele os interpreta de maneira fiel à intenção original de cada um, com sobriedade, convicção e lirismo, sem se deixar levar pelo virtuosismo gratuito. O clima da execução se alterna ao longo das 14 faixas: ora é festivo, como em "Sebastiana" (faixa 2) e na brevíssima "Rapadura" (faixa 4), ora de uma alegria serena, como em "Roseira do norte", de Pedro Sertanejo (faixa 7), ora introspectivo, como em "Darlene Triste"(faixa 3), composta por Gilberto Gil para o filme "Eu Tu Eles". Também pode ser denso e até angustiado, como na faixa título (11), ou vigoroso e obstinado, como em "Caboclinho" e na seção final de "Janga" (faixas 12 e 13) - estas, de autoria do próprio Heraldo. O disco como um todo mantém um nível consistentemente elevado, porém pode-se destacar dois pontos altos: a faixa 8, "Lamento sertanejo", obra-prima de Gilberto Gil e Dominguinhos, e a faixa 14, "Lágrima nordestina", música que Heraldo já havia gravado em seu disco Cordas Vivas, de 1982. Nesta última peça, após uma introdução em andamento lento, o desenvolvimento lembra uma majestosa passacalle (um tipo de dança barroca), onde a base harmônica do tema se repete continuamente, e sobre ela o músico tece uma sequência de variações, para concluir com uma reexposição do tema.

Uma característica que chama a atenção do ouvinte, no disco como um todo, é a sua aparente simplicidade. Porém essa afirmação merece ser um pouco mais elaborada. Estamos falando aqui daquela simplicidade a que se chega somente depois de percorrer um longo caminho, depois de toda uma vida de acordes e escalas. (Vida que, como se sabe, passa pelo inesquecível Quarteto Novo, pelo grupo Medusa, pelo histórico ConSertão, pelas parcerias com Hermeto Pascoal, pelos vários discos solo.) Primeiro, Heraldo opta pela simplicidade naquelas situações onde o usual seria, talvez, recair na complicação. Ele resiste à tentação de elaborar, ornamentar, sobrecarregar - tentação à qual um artista com menos vivência facilmente poderia sucumbir. Porém, poderíamos perguntar, com que objetivo? O que Heraldo consegue com isso? O que ele consegue é ir ao cerne de cada tema, revelar sua essência - algo que, convenhamos, é sempre desejável mas nem sempre é fácil. Em segundo lugar, é interessante como, em meio a esse aparente despojamento, podemos vislumbrar lampejos de uma mente musical plenamente amadurecida, consciente do que faz, possuidora de todos os recursos técnicos concebíveis. Encontramos aqui e ali certas harmonias sutilíssimas, topamos com mudanças de andamento inesperadas... Pode-se falar, então, de uma espécie de "simplicidade elaborada", uma "simplicidade pensante", digamos assim. Aquela simplicidade de quem já está voltando quando muitos ainda estão indo...

Depois de regalarmos nossos ouvidos com este CD, a única coisa a lamentar é que a sua duração total não seja maior: ela mal chega aos 40 minutos. Em se tratando da arte de Heraldo do Monte, até 80 minutos ainda seriam pouco! Resta recomendar Viola Nordestina a todos aqueles que gostam de violão e música brasileira, e aguardar as próximas criações do mestre.

Valter A. Bezerra

apoio cultural


 

 

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