Resenha
ejazz
Este
CD recente de Heraldo
do Monte, onde encontramos o maior violonista brasileiro
em plena maturidade artística, é bem representativo
da sua fase atual. Acima de tudo, este disco lançado
pelo valoroso selo Kuarup é coerente com as obras
anteriores de Heraldo. Estão presentes todas aquelas
características da sua música que já
aprendemos a admirar: a técnica impecável,
a clareza do som, a nitidez no fraseado, os improvisos
espirituosos, o compromisso profundo com as formas e os
ritmos brasileiros, o equilíbrio entre expansividade
e introspecção. Como indica o próprio
título do CD, este é um disco centrado nos
ritmos do Nordeste brasileiro. Segundo seu costume, ao
longo das várias faixas Heraldo passeia por diferentes
instrumentos: violão com cordas de nylon, viola,
violão com cordas de aço, baixola e contrabaixo,
tendo ainda as participações de Luis do
Monte (violão de aço e nylon) e Déo
de Araújo (percussão).
Neste
CD, Heraldo escolheu partir de temas que geralmente possuem
melodia e estrutura harmônica básica bastante
despojadas, sendo seis deles de sua própria autoria.
Ele os interpreta de maneira fiel à intenção
original de cada um, com sobriedade, convicção
e lirismo, sem se deixar levar pelo virtuosismo gratuito.
O clima da execução se alterna ao longo
das 14 faixas: ora é festivo, como em "Sebastiana"
(faixa 2) e na brevíssima "Rapadura"
(faixa 4), ora de uma alegria serena, como em "Roseira
do norte", de Pedro Sertanejo (faixa 7), ora introspectivo,
como em "Darlene Triste"(faixa 3), composta
por Gilberto Gil para o filme "Eu Tu Eles".
Também pode ser denso e até angustiado,
como na faixa título (11), ou vigoroso e obstinado,
como em "Caboclinho" e na seção
final de "Janga" (faixas 12 e 13) - estas, de
autoria do próprio Heraldo. O disco como um todo
mantém um nível consistentemente elevado,
porém pode-se destacar dois pontos altos: a faixa
8, "Lamento sertanejo", obra-prima de Gilberto
Gil e Dominguinhos, e a faixa 14, "Lágrima
nordestina", música que Heraldo já
havia gravado em seu disco Cordas Vivas, de 1982. Nesta
última peça, após uma introdução
em andamento lento, o desenvolvimento lembra uma majestosa
passacalle (um tipo de dança barroca), onde a base
harmônica do tema se repete continuamente, e sobre
ela o músico tece uma sequência de variações,
para concluir com uma reexposição do tema.
Uma
característica que chama a atenção
do ouvinte, no disco como um todo, é a sua aparente
simplicidade. Porém essa afirmação
merece ser um pouco mais elaborada. Estamos falando aqui
daquela simplicidade a que se chega somente depois de
percorrer um longo caminho, depois de toda uma vida de
acordes e escalas. (Vida que, como se sabe, passa pelo
inesquecível Quarteto Novo, pelo grupo Medusa,
pelo histórico ConSertão, pelas parcerias
com Hermeto
Pascoal, pelos vários discos solo.) Primeiro,
Heraldo
opta pela simplicidade naquelas situações
onde o usual seria, talvez, recair na complicação.
Ele resiste à tentação de elaborar,
ornamentar, sobrecarregar - tentação à
qual um artista com menos vivência facilmente poderia
sucumbir. Porém, poderíamos perguntar, com
que objetivo? O que Heraldo consegue com isso? O que ele
consegue é ir ao cerne de cada tema, revelar sua
essência - algo que, convenhamos, é sempre
desejável mas nem sempre é fácil.
Em segundo lugar, é interessante como, em meio
a esse aparente despojamento, podemos vislumbrar lampejos
de uma mente musical plenamente amadurecida, consciente
do que faz, possuidora de todos os recursos técnicos
concebíveis. Encontramos aqui e ali certas harmonias
sutilíssimas, topamos com mudanças de andamento
inesperadas... Pode-se falar, então, de uma espécie
de "simplicidade elaborada", uma "simplicidade
pensante", digamos assim. Aquela simplicidade de
quem já está voltando quando muitos ainda
estão indo...
Depois
de regalarmos nossos ouvidos com este CD, a única
coisa a lamentar é que a sua duração
total não seja maior: ela mal chega aos 40 minutos.
Em se tratando da arte de Heraldo do Monte, até
80 minutos ainda seriam pouco! Resta recomendar Viola
Nordestina a todos aqueles que gostam de violão
e música brasileira, e aguardar as próximas
criações do mestre.
Valter
A. Bezerra